sexta-feira, dezembro 17, 2010

Um animal que voa

Que saudades de quando eu era acrobata! Era praticamente um morcego, um falcão, um esquilo voador.
Muitas vezes assustei a plateia fingindo ter perdido braço nas manobras, só para torcer então o meu corpo mole e recobrar o equilíbrio de forma inesperada. Todos se levantavam e soltavam exclamações de espanto.
Mas eu gostava mesmo de assustar o meu patrão. Ele sempre me disse que eu valia o investimento. Deu trailer particular, toalhas com meu nome bordado, uniforme brilhante, um rapazinho assistente. Sempre que eu podia, simulava um desastre para ver o pobre velho descorar como um defunto. Nas noites de arquibancada cheia, eu bamboleava frouxamente e depois soltava um grito, quase fazendo o sujeito chorar. Depois, com destreza, me grudava à corda mestra e puxava de volta o trapézio, arrancando aplausos e assovios do respeitável público.
Um belo dia minha acrobacia falhou. Me pendurei nas argolas portando todo orgulho e faceirice que minha mãe me legara. Dei umas voltas completas apenas pra me aquecer. Quando soltei a mão direita para me virar de costas, a esquerda deslizou. Pensei em segurar com força, mas de nada valeria a força a meio caminho do chão. Meus dedos ficaram pretos, gelados, suados. Ninguém percebeu nada disso; a coisa toda durou segundos. E lá se vai o esquilo. Lá tombou o falcão, atingido na asa. Não houve quem me aparasse. O velho patrão caiu duro pra trás. E a plateia, sem entender nada, aplaudiu minha desgraça.
(Da série: Memórias de fatos que nunca ocorreram)

Um comentário:

Eurico Rocco disse...

Passei horas aqui, e corro o risco de ser demitido

adorei o blog

http://delitosperdidos.blogspot.com/