sábado, janeiro 15, 2011

Breve

Lembro-me de ter vivido na penumbra por muito tempo. Arrastava-me para fora dela e meus olhos ardiam. De meus braços finos e pardos, pendiam argolas finas de metal amarelo. Enrolava-me em panos grossos e tintos de cores vivas.
Meus cabelos ásperos e grisalhos estavam sempre enrolados numa moita fétida de óleo e poeira. Pintava-me com as cores do deserto misturadas a água e linhaça. Não me lembro bem por quê, talvez para proteger o rosto. Comer era sempre um sacrifício, com meus dentes gastos e insuficientes.
O fino pó que pairava no ar seco penetrava em meus pulmões e queimava minhas narinas. Já não contava os anos, porque os desconhecia, e a vida era uma única linha ininterrupta e esturricada.
Para viver, fazia cestos. Tecia-os trançando palha que buscava muito longe. Meus poucos bens consistiam de alguns panos, dois potes de barro, uma bilha, um jarro de vinho com a caneca lascada, uma gamela cavada num toco, uma faca, alguns cestos de grãos e uma cabra. À noite a cabra dormia ao meu lado, para que não a levassem.
Já nao sei falar minha língua. Esqueci-me de onde cresci. Não tive homens nem crianças, não fiz grandes coisas. Poucas vezes vi meu rosto, no reflexo na água. Era o mesmo rosto de hoje, mas crestado e fino.
Talvez depois da minha morte, alguém tenha posto pedras sobre meu leito e levado a cabra embora. Quem era meu deus nesse tempo, eu não sei. Talvez ele também não soubesse quem eu era. E apesar de tudo, sinto falta da penumbra.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

2 comentários:

Eurico Rocco disse...

Adoro seu blog e sua maneira suave de escrever

http://delitosperdidos.blogspot.com/

ric@rdo disse...

Incrível!