terça-feira, janeiro 18, 2011

Sonya e seu filho Acke

Numa das vezes eu acordei sem saber o que tinha acontecido. Meu rosto doía tanto que pensei que ia morrer. Mal conseguia abrir os olhos.
Então me lembrei da noite anterior em que aquele porco chegou tarde e muito bêbado. Revirou toda a casa à procura de "meus amantes". Depois me fez cozinhar enquanto bebia mais. Depois de comer, me jogou na cama e fez o que quis. Antes de dormir, como recompensa, amassou minha cara na parede.
As plantações já não o empregavam mais. Ganhou o apelido de Soaker por conta de seu vício. Vivia coberto de piolhos e ferimentos de luta. Onde quer que fosse, arranjava confusão.
Por duas vezes encostou a faca em meu peito e me ameaçou. Se eu fugisse, me apanharia no inferno. Deu meu filho para sua irmã criar, para que eu não me atrevesse a tentar ir embora.
Da segunda vez, não desmaiei. Havia ficado em casa esperando, com tudo ajeitado e certo. Ele entrou urrando e agitando os braços. Extremamente bem-humorado. Primeiro me jogou na cama e me cobriu com seu suor acre. Em seguinda espancou-me até se cansar. Depois comeu tudo o que tinha na casa e dormiu como um gatinho.
Levantei-me devagar e subi em seu corpanzil imóvel. Enterrei dois terços do punhal na sua carne dura, e só não fui além por me faltarem forças. Ele deu um gemido longo, mas não se mexeu. Morreu quieto o desgraçado, que eu queria que sofresse.
Saí dalí com o punhal e uma vela, e andei por duas horas na escuridão até a casa da irmã dele. Empurrei a porta devagar e a encontrei dormindo com seu filho mais velho e o meu menininho, numa cama perto do fogo. Tomei meu filho de seus braços temendo que ela acordasse, e disposta a matá-la também. O bebê quis chorar, mas saí depressa, deixando a arma.
Entrei pela mata e andei até amanhecer. Paramos algumas vezes para descansar. Quis manter-me andando para não pensar. Pela manhã, vali-me da criança para obter ajuda, apelando para a caridade de estranhos.
Nunca soube o que houve depois que eu parti. Nunca procurei saber.
Foi assim que vim parar aqui, e é por isso que hoje estou dando esta festa. Não nego que me orgulho do que fiz.
(Da série: Memórias de fatos que nunca ocorreram)

Nenhum comentário: