quarta-feira, março 02, 2011

Sonho cinematográfico

Esta noite sonhei que eu e a Priscila, uma antiga amiga, estávamos andando em Rio Preto e não conseguíamos voltar pra casa antes de escurecer. Mas à noite a cidade era perigosíssima pois monstros vagavam pelas ruas matando os humanos, e tudo mais que passasse perto. Na verdade os monstros eram pessoas que tinham se tornando zumbis ou coisa parecida, por efeito de alguma radiação ou poluição.
Todo mundo sabia dessas criaturas, então pouca gente se arriscava fora dos portões e grades depois que o sol se punha.
Estávamos na praça cívica, mas no sonho o rio que a corta não era coberto, era tudo aberto e mais parecia um parque ou bosque. Como estávamos perto da rodoviária, decidimos cruzar a praça, tentando não chamar a atenção dos zumbis, evitando ruídos e movimentos bruscos. Meu coração disparou só de pensar em andar na negra e suja praça, sabendo que ali aquelas criaturas terríveis faziam carnificinas.
Depois de hesitar muito, demos as mãos, baixamos a cabeça e tentamos ir rápida e silenciosamente, pois o caminho era curto.
Porém, bem ao nosso lado parou um cara de moto com o farol aceso, e o imbecil mexia tanto a moto que o farol iluminou um grupo de monstros à nossa frente. O piloto, desajeitado, não conseguia desligar o farol e a pessoa que estava com ele não se decidia se subia ou descia da moto, causando estardalhaço. Os zumbis vieram correndo e tivemos que fugir correndo para a rodoviária, lugar gradeado e fortemente protegido (no sonho). Só que àquela hora ela também já estava cheia de maloqueiros, bandidos e pessoas suspeitas, ainda que não fossem monstros. Ninguém ousava ficar na rua, nem os tipos mais perigosos. Fiquei com a minha amiga enquanto ela chamava um táxi. Depois que ela foi embora, não liguei para o meu pai por causa da hora, e resolvi ficar na rodoviária até amanhecer.
Junto à rodoviária havia um prédio público - que na verdade não existe - onde funcionava o Centro de Ciências Aerospaciais, uma escola para pilotos, uma espécie de NASA, etc. Eu trabalhava lá, mas apenas em serviços burocráticos.
Notei que os zumbis avançavam confusamente para a rodoviária. Começaram a aparecer nas televisões notícias de invasões e ataques das horríveis criaturas. Os zumbis já eram maioria - havia poucos humanos não-infectados. A vida das pessoas era um inferno. Muitos haviam perdido parentes, que agora vagavam pelas ruas matando pessoas. Era desesperador. Os zumbis se escondiam em lugares sórdidos, eram assutadores, matavam pessoas e animais, destruíam. Na verdade não eram mortos-vivos, mas pessoas doentes, contaminadas, privadas da razão. Podiam ser mortos, como pessoas normais, porém havia um debate sobre a ética de atirar em pessoas doentes, etc. Ninguém queria ver seus parentes serem mortos pela polícia nas ruas, por mais abomináveis que estivessem agora.
Quando já estava amanhecendo, fui direito para o prédio onde trabalhava. Lá chegando fui informada de que estavam recrutando equipes de pessoas com variadas habilidades para tripular naves de fuga para fora da Terra. Uma vez que a situação no planeta estava insustentável, e que tinham sobrando poucos humanos saudáveis e capazes de recomeçar a vida fora dos domínios dessa doença, e como alguns poucos humanos tinham mais resistência ao contágio, o órgão público decidiu disponibilizar naves e recursos para que tentássemos viver em outro lugar.
Fui incluída numa das naves por sorte. Não tenho habilidades especiais, e no sonho eu era eu mesma. Chegando ao local de treinamento, fui conhecer o aparelho. Não era uma Battlestar, mas também não era uma geladeira. Era mediana, com cinco andares, nos quais acomodaríamos arquivos, estoques de víveres, objetos de uso pessoal, horta, plantas, combustível, equipamentos e nós mesmos.
A preparação para o vôo foi rápida devido ao perigo que corríamos. Os engenheiros e cientistas estavam afoitos para liberar cada nave tendo a certeza de que garantiriam sua sustentabilidade. Uma tremenda correria.
Recebemos sementes, mudas e embriões de animais conservados em animação suspensa, que depois seriam revividos e cultivados por nós quando achássemos ambiente adequado. Nossos estoques incluíam toneladas de alimentos liofilizados, um tanque de algas (engraçadíssimo que em gravidade zero a alga se espalhasse toda pela redoma de vidro, formando uma espécie de cortina de veludo. Era difícil cuidar disso).
Havia também algumas árvores e plantas, fechadas num terrário gigante no qual podíamos entrar às vezes. O chão era telado para segurá-las no lugar. O sistema de irrigação usava água reciclada das latrinas.
Viveríamos de maneira muito limitada, em pouco espaço, sem banho e a maior parte do tempo, sem gravidade. Havia um meio de mimetizar a gravidade, mas consumia muita energia e teríamos que poupar todo o combustível possível, sem saber quando e se voltaríamos à Terra ou encontraríamos outro planeta.
A equipe destacada para a minha nave era composta de: Uma capitão (Sigourney Weaver, yeah), um piloto experiente, um engenheiro mecânico de aparência decrépita, uma bióloga, um cientista jovem e lindo cuja especialidade não lembro, eu - que fazia "de tudo", duas estagiárias e um estagiário. Na última hora foi incluída uma louca lá, que entrou no prédio quando fugia do próprio pai que tinha virado zumbi. Ela estava muito chocada e, como estávamos de partida, argumentei que era muito mais chocante abandonar a Terra, que talvez fôssemos apenas morrer em outro lugar, etc. e a levamos junto..
O que a equipe toda tinha em comum era uma resistência elevada à radiação que contaminava as pessoas. Esta radiação era causada pela poluição ou algo assim.
No dia da nossa partida (três dias depois de eu ser perseguida pelos zumbis na praça cívica), arrumamos as malas, levamos tudo o que podíamos e queríamos e demos adeus à Terra.
Nossa nave se chamava Nostromo. Qualquer semelhança com a ficção não é mera coincidência.
Depois da decolagem passamos alguns minutos sem conversar, esperando que algo terrível acontecesse. Nada aconteceu. Depois da sensação de alívio, veio a ausência de gravidade. Perturbador e limitante. Tudo fica difícil. Contivemos o desejo de simular gravidade usando os recursos da nave. Utilizamos apenas o mínimo possível de cada coisa. Assim, estávamos sempre excessivamente agasalhados, porque o aquecimento era mínimo. Mantínhamos as lâmpadas UV acesas somente para as árvores, plantas e algas, e ficávamos na penumbra. Assim elas geravam oxigênio e alimento e nós ficávamos em letargia.
De cara, não gostei do piloto. Arrogante e reclamão, ele estava sempre pronto a criar caso, especialmente com o mecânico, velho acabado e mau-humorado.
Nossa capitã (capitã ou capitão?) falava pouco e estava sempre ocupada com a criogenia e a pesquisa de astros que nos fossem convenientes.
A bióloga era gente boa e me explicou muitas coisas sobre o cultivo de algas, a diferença de desenvolvimento em gravidade zero, os efeitos do frio e do ar rarefeito sobre as espécies, etc. Muito interessante.
O outro cientista eu mal via. Talvez se ocupasse de pesquisas que eu jamais fosse capaz de compreender. Os estagiários passavam a maior parte do tempo nos alojamentos, brigando, brincando ou estudando. Tinham recebido bem a fugitiva de última hora.
Era deslumbrante a paisagem vista pela pequena escotilha de observação. Não dava para ver a Terra, devido ao ângulo, mas víamos outros corpos celestes. Estávamos saindo do Sistema Solar. Não acreditei que acharíamos algo facilmente. Usávamos a gravidade de certos astros para ajudar na propulsão. Não me lembro qual o combustível usado e qual o consumo, mas lembro que carregávamos um certo minério que era utilizado na nave em estado bruto.
Precisávamos encontrar um planeta ou satélite cuja temperatura fosse suportável, que tivesse água ou gelo, que tivesse atmosfera e gravidade razoavelmente parecidas com a da Terra, e cuja superfície contivesse alguns minerais essenciais para nossa vida. Estávamos há meses navegando. Algumas plantas morreram, outras atrofiaram significativamente, outras cresceram desmesuradamente. As algas continuaram firmes e fortes na sua redoma, e dela tirávamos proteínas e nutrientes, além do oxigênio. Levávamos pequenos pacotes de minerais em pó que adicionávamos à água para nutrir as plantas.
Nosso banhos consistiam de pequenas toalhas embebidas numa loção ou emulsão. Cada uma vinha dobrada e embalada num plástico. Uma era suficiente para o banho. Todos tivemos que cortar os cabelos, por não termos como lavá-los. Não excursionávamos em volta da nave, mantendo-nos sempre protegidos. Todo nosso lixo era reciclado pelos estagiários - se bem que não era muita coisa. Na maior parte do tempo, líamos, estudávamos, ou nos ocupávamos com trabalhos manuais.
Fazer exercícios era tremendamente difícil e estranho, por mais adaptados que fossem os aparelhos, e por isso, nossos corpos doíam e nos queixávamos de dores nas juntas. Estávamos magros, pálidos, cansados e desesperançados.
Até que nossa capitã anunciou a descoberta de um asteróide ou planeta diminuto de superfície rochosa, com órbita definida e alguma gravidade. Isso no sonho; nem sei se isso existe e se bastaria para nos acolher.
Pousamos a nave entre picos de rocha e ravinas. O solo era coberto por cascalho vermelho. Parecia magnetizado, parecia puro ferro, mas não sei se era. Sentir o efeito da gravidade depois de vários meses foi estranhíssimo. Sentíamos dificuldade de nos mover e até para respirar. Parecia que estávamos sendo compimidos contra o chão. E olha que a gravidade do objeto nem se compara à da Terra.
Enquanto nos ambientávamos (deitados, sofrendo e reclamando), a bióloga e o engenheiro resolveram descer da nave e ver o planeta. As condições não eram promissoras: ventos fortíssimos, pouca luz, temperaturas baixíssimas, e nem sinal de água. Iam estudar mais para ver se algo ali se aproveitava, e depois partiríamos.
Fui descansar no alojamento dos estagiários e lá eles me mostraram, pela pequena escotilha de observação, que parecia haver vida no lugar. E realmente, dentro de uma fenda na rocha, havia um artefato obviamente fabricado. Uma criatura que parecia humana o manipulava. Logo, de dentro do que parecia ser uma arma, saiu um pequeno aparelho que parecia um foguete em miniatura; ele veio até a janela e comentei: ele vai quebrar a janela e estamos perdidos. Mas o objeto atravessou o vidro e lançou sobre nós uma luz verde, mas não sentimos nada. Depois lançou uma luz vermelha na parede e ela começou a se desfazer em pedaços. Nos apavoramos e corremos para fora do alojamento, gritando para alertar a chefe. Ao perceber o ataque ela ordenou a partida. Saímos sob ataque pesado e, mal decolamos, o foguetinho que nos atacou e que ainda estava lá dentro, caiu no chão da nave, inanimado. Parece que a distância da base o fez desligar. Ficamos com ele para análise.
Estávamos apavorados, cansados, desesperados.
Depois de viajar muito tempo, notamos que precisávamos de mais combustível ou algo que o substituísse (mas como?). Graças a Deus encontramos outra nave terrestre, do mesmo modelo que a nossa, a pouca distância no espaço. Fomos até eles e não conseguimos contato.
Embarcamos, atracando nossa nave à deles e arrombando a entrada. Lá dentro, nenhum sinal de vida humana. Encontramos tudo como devia estar no dia da partida. Nada havia sido usado, retirado, destruído. Depois de uma busca encontramos a tripulação em animação suspensa. Apenas um devia ter ficado de fora, logicamente o piloto, mas não o encontramos em parte alguma. A nave estava à deriva, sem destino programado e com consumo mínimo de propulsor.
Num ato de egoísmo de rapinagem, levamos metade de tudo que eles tinham. Até tanques de oxigênio e cargas de combustível (era transportado em contêiners). Deixamos os pobres coitados com apenas metade do necessário para viver miseravelmente. Mas agora, pensando bem, se estavam em animação suspensa, demoraria até que precisassem de alguma coisa. E como não pareciam ter a intenção de chegar a lugar algum, os considerávamos suicidas e covardes. Carregamos nossa nave e nem nos preocupamos em procurar o piloto ou desocobrir o que tinha acontecido aos colegas.
As árvores e plantas deles estavam morrendo por falta de cuidados. Foi doloroso vê-las murchar e definhar daquela maneira. Quis levá-las, mas não era possível. Tive apenas o cuidado de recolher as algas, que haviam se multiplicado exageradamente, e filtrá-las para levar para nós. Assim, ao menos, comeríamos comida fresca e boa, já que nossas "lavouras" estavam escassas depois de meses de consumo.
Viajamos por mais algum tempo e ouvi o barulho de pedrinhas batendo no casco da nave. O barulho foi ficando mais forte, achei que estávamos sob ataque, ou numa chuva de meteoros. O barulho não parava, e de repente acordei. Era a chuva batendo na minha janela, hoje de manhã.

Um comentário:

Christiano disse...

Que sufoco!... Quando tenho sonhos assim sempre sobrevém um agravante: tento correr e não consigo!