segunda-feira, março 21, 2011

Vida de soldado

Lembro-me de quando fui à guerra. Nosso país se ofendeu com algumas frases irônicas de um premiê bovino, e o sujeito não quis se retratar. Devido a isso, nossos rapazes foram chamados para abrir fogo contra os rapazes deles.
Éramos jovens, alegres e simples.
Eu era namorada de um moço bonito e tímido, que gostava de ler e de andar de bicicleta. Ele estava estudando para entrar na faculdade, se Deus abençoasse, etc.
Quando os garotos foram convocados, todos os meus vizinhos e amigos iam. As moças estavam desconsoladas. Então me ofereci para ir junto, como voluntária. É claro que o capitão, conhecido do meu pai, teve que mexer uns pauzinhos. E eu teria que usar roupa de homem! Não queria seus rapazes entretidos com cintas e meias-calças enquanto a guerra explodia lá na frente.
Aceitei a condição e arrumei a bagagem. Livros, papéis de carta, roupas do meu irmão.
Nos preparamos num sítio que havia sido requisitado pelo batalhão. Lá, recebemos o treinamento (o meu consistia em limpar, cozinhar, tirar o lixo, carregar coisas, assistir os doentes e escrever cartas pelos que estavam impossibilitados). Eu e meu noivo (incrivelmente semelhante ao Christian Bale) estávamos muito apaixonados e levávamos a guerra a sério. Queríamos voltar vivos para poder casar. Até que surgiu a interessante ideia de irmos casados. O capelão me fez lavar a igreja e deixar tudo ajeitado. Minhas amigas vieram e arrumaram meu cabelo. Casei-me dois dias antes de pegarmos o trem para o front de batalha.
Na hora de pegar o trem, parecíamos crianças esperando o ônibus da escola. Alguns mais compenetrados, outros fanfarrões, todos com suas mochilas cheias de bugigangas próprias de meninos. Ríamos e acenávamos para os garotos dos primeiros vagões, enquanto o trem parava para nos acolher.
A guerra foi rápida e cruel.
Depois disso me lembro de chegarmos a um cemitério, em que procurávamos túmulos específicos para colocar flores. Todos nós, visitantes, trazíamos muitas flores. Era outra época, a guerra havia acabado, vivíamos tempos modernos.
Não me lembro de ter sido tão triste na época da guerra. Foi muito mais triste ter que levar a vida depois, sem nossos companheiros mortos.
(Da série: Memórias de fatos que nunca ocorreram)

Nenhum comentário: