sábado, abril 23, 2011

A Cidade

Daqueles sonhos interessantes, eu tive mais um esta noite. Sonhei que construía uma cidade perfeita. Com palácios e árvores, uma praça imensa no centro de tudo, com uma gigantesca fonte de granito. Tudo era suntuoso e imenso. As árvores eram tão altas que eu perdia o topo de vista. O principal palácio era claro e brilhante, polido, vasto e limpo. Poucas pessoas circulavam por ali (como deve ser). Os pássaros e outros pequenos animais brincavam pelos magníficos jardins.
As crianças aprendiam no templo, com os mestres, e não tinham permissão para ficar na rua ou entre os adultos. Desde o nascer do sol até o cair da noite, elas eram educadas, fatigantemente educadas, por sábios de todas as áreas. Também havia poucas crianças, na verdade (como deve ser).
O trabalho era executado por todos os que tinham capacidade. Ninguém ficava ocioso. É vergonhoso que haja gente capaz de trabalhar e prefira ser inútil, esperando que outros trabalhem em seu lugar. Naquela cidade, cada um fazia por si. Não havia produção em série. Cada bem era fabricado com um propósito e para uma pessoa específica. As pessoas adquiriam aquilo de que necessitavam e não acumulavam lixo (como deve ser). Entretanto, ninguém era comunista. As pessoas eram livres para lucrar, trocar, vender, ganhar o que fossem capazes de conseguir honestamente.
O luxo era um hábito arraigado, ninguém vivia para comer. Todos usufruíam das belas obras. Os cidadãos eram limpos e bem educados, ninguém era desleixado ou vulgar. Todos apreciavam as artes e todos os dias viviam com elas; sempre havia música e perfumes, sempre havia prazeres e belezas a serem admiradas. As pessoas respeitavam os limites porque queriam ser respeitadas, e a punição era o banimento. Ninguém incapaz do respeito era digno de viver entre homens e mulheres respeitáveis.
A vastidão da cidade e o parco número de habitantes contribuíam para que jamais houvesse desavenças e mesquinharias. As pessoas só se encontravam quando era de sua vontade, e somente para apreciar uma boa companhia. Recebiam seus amigos e convidados com simplicidade, mas sempre com conforto. A limpeza e o silêncio eram muito valorizados, por permitirem que as pessoas pensem.
Não havia competições tolas. Os homens faziam esforços físicos e as mulheres adquiriam resistência. Plantava-se o que era necessário nas imediações, em campos ou em estufas, e cada família era responsável por uma cultura. Os monges do tempo criavam abelhas e plantavam ervas, das quais fazíamos óleos e remédios. Não se produzia nada além do necessário. Não havia excedente, desvalorização da safra, exportação. Cada um providenciava aquilo que lhe faltava. Se havia restos, eram jogados para as aves e bichos do mato.
Não usávamos cavalos e outros animais como máquinas, todos carregavam e puxavam o que lhes era possível carregar e puxar. Os bichos existiam para o mesmo propósito que nós: usufruir a vida, vivenciá-la, sem imposições ou impecilhos.
Nos bosques à nossa volta as feras corriam soltas, e outros bichos selvagens, porque nunca caçávamos, a menos que fôssemos atacados. Mas ninguém se aventurava tão longe; não por medo do perigo dos animais ferozes, mas por medo de encontrar o resto do mundo, o povo de hoje, a civilização. Fazíamos o que podíamos para jamais ser vistos pelos gafanhotos humanos, devoradores, irresponsáveis e repulsivos em seus modos.
Os rochedos e florestas que nos separavam do resto do mundo eram quase intransponíveis. Mas sendo o povo teimoso e desrespeitoso como é, jamais havia uma segurança perfeita.
Nos meses de inverno trabalhávamos em casa, cada família em seu lugar de poder, produzindo tecidos e perfumes com o material guardado nos meses mais quentes. Como vivíamos afastados uns dos outros, as árvores tapavam a vista, e era raro avistarmos nossos vizinhos nos dias mais frios, quando ninguém ia muito longe de seu próprio lar. Desse modo, sentíamos saudade - quem diria - de rever as pessoas e contar histórias. Os meninos lutavam em frente ao fogo enquanto as meninas dançavam, isso para se aquecer, e também pela beleza que há nos movimentos do corpo, que sempre são admiráveis.
Cada família tinha sua biblioteca, e havia mais uma no palácio principal, onde todos podiam entrar para ler e ver as obras de arte. Nada ficava escondido ou era negado; todos podiam deleitar-se com a visão do Belo, e por isso todos cuidavam de tudo. Era uma grande vergonha danificar algo de uso comum.
Não havia governantes, apenas um conselho constituído das pessoas mais velhas de cada família, e nada era feito sem que eles concordassem, porque jamais era preciso dar ordens, todos tinham boa vontade e faziam porque desejavam. Sem rei ou presidente, não havia roubos, pobreza, mentira ou violência. Porém os velhos eram respeitados, porque sabíamos que nenhum grupo de pessoas pode viver sem orientação e liderança.
Me espantava a beleza das pessoas, talvez porque comíamos comida e não respirávamos gases tóxicos. Todas as mulheres eram vaidosas e estavam sempre luxuosamente produzidas, exceto durante o trabalho manual. Os adolescentes eram fortes e ágeis. As crianças eram ativas e magras. Os velhos tinham disposição e firmeza.
Infelizmente esse sonho só durou uma noite. De manhã o barulho me confundiu e comecei a sonhar outras coisas. Aos poucos minha cidade sumiu e o povo voltou a existir. Acordei com saudades; espero um dia voltar para lá.

Um comentário:

Anarcofagico disse...

Sonhos: o delírio mais prazeroso.