terça-feira, abril 05, 2011

Cruas tintas

Sempre fui um pintor medíocre. Gostava de cenas pedantemente triviais. Ficava horas montando uma mesa aparentemente desarrumada, que depois pintava sem a menor emoção. Certa vez trouxe para casa um gato morto, a fim de pintá-lo "dormindo". Teria sido um sucesso, se não fosse seu cheiro a empestar meu estúdio, cujos visitantes fugiam alarmados. Desisti do gato morto e passei a coisas mais simples.
Certa vez uma senhora pediu que pintasse seu retrato. Posou por alguns dias tão bem, que pensei que, pela primeira vez, pintaria algo de valor. Então adquiriu varíola e ficou irremediavelmente mudada. Não fui capaz de alterar-lhe as feições no quadro, e a tela perdeu seu valor, já que o retrato já não seria mais do objeto, mas de uma memória vazia.
Sempre fui um sujeito pedante. Os poucos estudos que fiz sobre arte, fiz questão de alardear aos quatro ventos. Mentia também, quando não sabia do que estava falando. Mas tais manifestações de "sabedoria" não produziram o efeito desejado, e jamais tive legiões de fãs. Também não sentia nenhum orgulho de expressar opiniões incompreensíveis a respeito de arte, e sempre me sentia um canalha. Era, pois, um pedante contrariado e arrependido.
Por teimosia, insistia em pintar. Minha obra chegou a figurar entre outras melhores, e mesmo alguns honestos pintores símplices eram mais reconhecidos, sem no entanto alcançar nenhuma glória - pelo que, concluo que tanto faz ser um mau pintor sincero, ou um falso bom pintor.
Embora não seja um maldito filisteu boêmio, como tantos que já vi a criticar pintura em botequins, sempre fui um tanto cínico. Meus esgares desconfiados tinham muito mais de inveja que de genuína análise, mas de uma forma ou de outra, mais de uma vez fui convidado a criticar meus pares. Impiedosamente, esmagava-lhes o espírito.
Quis fazer fortuna, é verdade, mas era mau administrador e quando via dinheiro, gastava logo com tolices luxuosas que me davam prazer imediato e que eu considerava recompensa merecida por meus esforços artísticos, e de fato era mais que bastante, pois somente um esforço autêntico merece recompensa duradoura.
Matei-me aos trinta e dois anos, numa noite de calor, depois que um cavalheiro bofo e sádico tomou-me por artista sincero e pôs-se a avaliar minha obra. O sujeito teve o despudor de olhar um por um dos meus quadros não-vendidos e derramar sobre eles Verdade. Não fui capaz de lidar com isso. Sorri tristemente ante cada frase. Os expectadores sorriam e batiam palmas de prazer. Enquanto eu era massacrado, apenas o cavalheiro que executava o serviço me olhava nos olhos. Todos os outros sabiam de meu gênio ruim.
Quando achei que bastava, deixei-os olhando meus quadros e fui até minha alcova. Peguei a arma e a carreguei lentamente. Tive bastante tempo; ninguém veio me falar. Passei pelos presentes e fui até a rua. Lá consumei o meu ato. Minha obra-prima. Talvez minha única obra sincera, talvez a única de real valor. Um presente para meus convivas.
Agora me indigno um pouco: não recebi dinheiro por ela.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

3 comentários:

Katrina disse...

A maior obra prima, uma intervenção urbana que seria enterrada e esquecida.

Thales Gaspari disse...

Muito bom!

Thales Gaspari disse...

Muito bom!