domingo, maio 22, 2011

A caixa

Espiei pelo cristal pela segunda vez. Era difícil crer no que via. Ao longe, em meio à poeira, pairava a caixa de metal. Flutuava mansamente, sob a luz ardida e sufocante da estrela.
Organizamos a busca. Dezesseis homens armados, cinco kelbs, eu e Inzs. Trouxe comigo o cristal e, durante toda a travessia do planalto, observei a caixa pairar. Girava muito lentamente para a esquerda. Os untas marchavam preguiçosos com sua apreensiva carga de guerreiros; estavam todos curiosos e amedrontados. Somente eu e Inzs parecíamos estusiasmados.
Havia onze gerações que estávamos naquele maldito rochedo. Era a primeira vez que algo nos surpreendia. Os ignorantes temiam a morte; eu já não temia a vida. Inzs estava disposto a lançar-se sobre a coisa para obter respostas - para obter qualquer coisa, qualquer sensação que fosse, qualquer estímulo. Estava excitado e impaciente.
Levamos seis dias para chegar à caixa. Estranhamente, não parecia tão grande quanto quando a vi do palácio. À medida que nos aproximávamos, os untas se impacientavam, refugando assustados. Deixamo-los presos à sombra de um agulhão e seguimos à pé para a coisa. Não era possível tocá-la, estava à altura de dois homens do chão. Sentamo-nos para pensar no caso. Caía a noite e a estrela fugia, permitindo-nos notar o suave brilho que a caixa emitia na escuridão.
Tecemos uma corda fina com nossas mantiyas. De manhã, lançamos a corda sobre a caixa e a forçamos em direção ao solo. Descemos a caixa bem lentamente. Inzs tocou sua superfície cor de Kurşun. Houve um clarão; uma forte luz radiou da caixa como numa explosão, porém nenhum som foi ouvido.
Isso é tudo que me lembra ter ocorrido. Não sei como vim parar aqui, nem que lugar é este. Não reconheço este céu nem estas criaturas, não sei onde estão meus homens. Quero apenas minha liberdade de volta.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

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