segunda-feira, julho 25, 2011

Pausa para pensar


Paramos a mineração mais cedo por causa do vento negro; é perigoso cavar quando as rochas reverberam e cantam no inverno. Qualquer desabamento é certamente fatal. Com o som agudo das pedras, as montarias lá fora se espantam, tombam os carros, espalham a carga e fogem. Subimos com os lança-raios às costas, pois deixá-los pode significar perdê-los para sempre.
Quase não se enxerga nada, e devemos evitar fazer mais ruído para que não haja tremores, por isso nosso tato precisa estar apurado. Nossas mestras nos ensinaram a tocar a rocha para ver onde está a saída: temperatura, veios, tudo ajuda a voltar à superfície em segurança. As mais velhas de nós já são cegas, elas vão à frente para nos orientar.
O uivo cortante da pedra aumenta subitamente. Nunca o vento negro foi tão forte! O satélite está de fato mais próximo. Em poucas eras temos de achar outro planeta; já não é seguro viver sob tal pêndulo mortal.
Descarrego minha última leva de minério. Meu carro quase toca o chão de tão carregado. Com tanta mercadoria, posso passar semanas em segurança na cidade sem precisar descer às minas. Isso me poupará do aluguel das bestas de carga e também gerará lucro abundante - a venda do minério tem alcançado ótima cotação agora que o planeta está quase desabitado. É preciso ter coragem para seguir minerando.
Meu homem deve pousar em algumas horas (dependendo das condições do vento) trazendo iguarias, licores rubros de Bawi e belíssimas sedas-líquidas. Ele quer que eu saia das minas, que abandone esse risco e vá com ele capturar narumas em Allerit. Mas Allerit é muito longe e os narumas já não dão tanto lucro, morrem rapidamente... e canto por canto, prefiro o das rochas.
Ao alcançar a saída me assusto com o frio - o uivo da rocha é ensurdecedor e os cristais trepidam sob meus dedos. Jamais me acostumarei ao medo. Tudo o que vejo é violeta e negro, e até os reflexos me parecem tenebrosos. Eu jamais me acostumaria aos sóis de Allerit. Alguns de nós já nascem sem olhos; daqui a poucas gerações será impossível sair deste lugar e aprender a viver fora, onde haja luz.
As outras mulheres terminam de amontoar sua valiosa carga nos carros e começam a puxá-los lentamente até as bestas presas no patamar, um degrau abaixo. Resmungonas e fáceis de lidar, essas bestas estão quase extintas, pois são mansas e dizem que a carne é boa. Mas eu nunca comi. Tenho pena quando as vejo com as crias - como as pegam em seus braços e aninham no peito de maneira tão carinhosa que quase acho que pensam assim como nós.
As mestras lideram a fila. Vagarosamente descemos, as bestas tropeçam devido ao peso da carga. Os grandes barões ficarão satisfeitos. Se metade da galáxia soubesse como são recolhidas as gemas uivantes das joias... bem, talvez todos já saibam.
Os ricos e nobres de toda a Aliança banham-se em artigos de luxo trazidos de toda parte do universo; para eles não existe preço, não há vidas perdidas ou gastos que os façam abrir mão de suas regalias: os raros e proibidos Dithrids que todos sabem que eles escondem (por mais ameaças que o Imperador faça para tentar impedi-los), as gemas uivantes, sedas-líquidas de cores incríveis, androides talentosos e divertidos, narumas e flautas que definham e morrem e ainda assim são capturados aos montes, a rara e cara clorofila, e muitos outros caprichos satisfeitos em nome da vaidade e da competição.
Por enquanto eu trabalho com as outras, mas quero abandonar as minas e me fixar na cidade. Não pretendo ficar velha e cega demais para conhecer outros mundos, e se for verdade que em breve os homens não terão permissão para pousar as naves antes de acabar o vento negro, estaremos condenadas à solidão. Nossa triste solidão uivante das cavernas.
(Da série: Memórias de fatos que nunca ocorreram)

Nenhum comentário: