segunda-feira, julho 25, 2011

Recomeço

Este já é o sexto dia. Serei breve porque o lápis está no fim e minha mão treme, me faltam forças.
Depois da última pá de terra, quis desaparecer dali. Arrastei minhas coisas para longe, tendo o cuidado de apagar minhas pegadas.
O deserto é generoso com quem o conhece: duvido que alguém encontre aquilo. Em poucos dias não haverá nem vestígios da passagem de humanos. O deserto sempre volta ao pó, se é que me entende.
A paisagem ondulante à frente é vermelha e esturricada (estou entre o pico rasgado ao meio e o símbolo dos nativos). O sol castiga minha pele e tenho de franzir o rosto inteiro para fixar a vista. Com um braço, arrasto minhas tralhas até o magro pangaré que aguarda solto; com o outro, tento proteger os olhos.
Preciso alcançar os planaltos antes de anoitecer. As moitas espinhudas não protegem a pessoa do vento gelado e poeirento; as rochas vermelhas contêm cavernas onde posso me esconder e fazer uma fogueira. Os coiotes não são problema - meu temor são os índios, por isso não posso deixar marcas de ter passado por aqui. Se encontram o que acabei de enterrar, sou um homem morto.
Daqui até o rancho da minha irmã são duzentas milhas. Se não encontrar água, eu e o cavalo não duramos trinta. Tenho carne defumada, posso trocar por cerveja no serviço postal.
A travessia agora vai ficar mais fácil, com o dobro de munição e uma boca a menos.
(Da série: Memórias de fatos que nunca ocorreram)

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