segunda-feira, setembro 26, 2011

Je ne love these fuckin' kids

Cenário: Estúdio de gravação de um canal de TV aberta. Os participantes da entrevista estão sentados em volta de uma mesinha de chá.

Apresentador: - Boa tarde! Estamos aqui com Lorde Sesame, secretário da escola municipal Cachinhos Dourados, para entrevistá-lo acerca de sua recente revelação como escritor de romances. Lorde Sesame, quando o senhor decidiu tornar-se escritor?
Lorde Sesame: - O homem já nasce pronto. (empertiga-se) Olhei-me no espelho e vi que era este meu pendor e meu fardo.
Comentarista de cartola: - Que finesse!
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Mas este é seu primeiro livro. Que me diz de todos esses anos de inatividade, se este é seu único pendor?
Lorde Sesame (falando para si mesmo): - Os críticos estão sempre a me avacalhar.
Comentarista de cartola: - Este é um ponto a ser salientado.
Apresentador: - Então, trata-se de uma obra autobiográfica?
Lorde Sesame: - Sem dúvida. Tenho trabalhado há vinte e oito anos com crianças. A secretaria da escola é um mundo, sabe? Um universo paralelo, um todo em si. Busquei os elementos de minha obra neste universo. E também usei conceitos absorvidos das leituras de cartas de Madre Teresa e do Marquês de Sade.
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Sempre os mesmos.
Comentarista de cartola: - Não sejamos tão severos!
Apresentador: - Eis aqui a tão comentada obra, "Je ne love these fuckin' kids" (exibe um volumoso tomo de capa dura, com o título impresso em letras douradas). A introdução foi escrita por Mozart.
Comentarista de cartola: - Que finesse!
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Se não me engano, Mozart já morreu.
Comentarista de cartola: - Não sejamos tão severos!
Lorde Sesame: - É sempre assim, quando não têm o que falar do conteúdo da obra, atacam o autor. É típico!
Apresentador: - É verdade que o senhor escreveu o livro todo em apenas quinze dias, durante sua Licença Prêmio por Assiduidade?
Lorde Sesame: - Modéstia à parte, sempre fui muito assíduo. Quando tirei a licença, perguntei-me como melhor aproveitá-la. Passei onze dias num ofurô, pensando. O restante usei para escrever o original. Metade dos capítulos foi escrita em francês. A editora cortou muita coisa, é verdade, mas a essência está aí, um apanhado, sabe? Anos e anos de bagagem.
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Então trata-se de um resumo?
Lorde Sesame: - Chame como quiser, recuso-me a debater com filisteus.
Comentarista de cartola: - Não sejamos tão severos!
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja (sarcástica): - É, não sejamos tão severos. Mas tenha a bondade de responder à pergunta.
Apresentador (apontando um trecho do livro): - Aqui diz que o senhor aprendeu as técnicas de La Canne no Alaska, enquanto se preparava para assumir o cargo na secretaria da escola. Como foi isso?
Lorde Sesame: - Ah, foi um período muito intenso da minha vida. Serpentes, leões. Fui picado por cascavéis na cabeça, veja (tira a cartola e expõe o couro cabeludo calvo e cheio de cicatrizes). Mas eu tinha que estar preparado. Lidar com crianças requer treinamento, não é assim um mar de rosas. Isso requer de um homem a fibra e a coragem de um lutador. Também tinha um mestre chinês que...
Comentarista de cartola (genuinamente surpreso): - Há chineses no Alaska?
Lorde Sesame: - Oh, e também escorpiões e jiboias, e pândegos, e gramofones...
Apresentador (balançando a cabeça): - Tenho horror a gramofones.
Lorde Sesame: - Para trabalhar na escola, é preciso enfrentar seus medos, seus terrores mais íntimos.
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Ainda aguardo uma resposta.
Lorde Sesame: - Perdão, onde estávamos?
Comentarista de cartola: - Aqui mesmo, debatendo. (coloca o monóculo e olha o relógio de bolso) Oh, temo que esta entrevista tenha chegado ao seu fim...
Apresentador (empolgadíssimo): - Acabou-se o tempo! Foi uma honra tê-lo conosco, Lorde Sesame, e desejo-lhe sucesso em sua nova carreira de escritor.
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Vocês são uns imbecis!
Comentarista de cartola: - Que finesse!

(Cai o pano)

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