sexta-feira, setembro 09, 2011

Uma peça de valor

Precisava sair de dentro da fenda. Ajustei meu chapéu à cabeça, torci a corda de couro na mão esquerda, e com a mão direita tateava a rocha. Minhas botas deslizavam nas pedras lisas do paredão. Às minhas costas balançava o peso do meu tesouro. Como minha cinta estava gasta e fina, decidi passar a corda por baixo dos meus braços. Tive que morder a corda para puxar a ponta e atá-la ao cabo no meu peito. Assim, se eu escorregasse, não viraria de cabeça para baixo.
O suor escorria para dentro dos meus olhos, atrapalhando a subida. Lá embaixo, alguns corpos de nativos e meu companheiro morto. Só me restava um revólver com quatro balas. Duvido que aqueles pretos conseguissem atirar lanças tão alto como eu estava, mas em plena luz do dia podiam tentar qualquer coisa. Esperava que nunca achassem a escada que jogamos na ribanceira, pois se subissem a rocha, cortariam o cabo que me segurava. Fui muito idiota de querer fugir para essa fenda maldita, em vez de voltar pelo rio. Àquela altura estaria no no jipe com o pobre coitado que ficou lá embaixo, e em menos de quatro horas chegaríamos à nossa cidadezinha, na santa paz de Deus.
Meu parceiro nunca foi o tipo aventureiro. Tinha uma mão atrofiada pela poliomielite, e usava óculos pesados e grossos que o faziam suar. Tocávamos uma loja de suprimentos de caça juntos, desde que minha mulher morreu. Ganhávamos mal; ninguém compra rifles se o pouco que tem praticamente só gasta em comida. E a pesca estava fraca por causa da mineração que estragava o rio, mais ao norte.
Aí surge esse velho estranho, num carro moderno desses capazes de andar centenas de milhas sem ferver.
O velhote parecia uma múmia, ele próprio. Todo murcho, com o nariz amassado e totalmente careca, suas mãos ossudas e cinzentas moviam-se lerdas à luz da lâmpada a gás do pequeno hotel onde nos encontramos.
Havia surgido aparentemente do nada logo cedo, e parou seu carro bem na porta da nossa loja. Quis ver os rifles, pediu indicações de pontos de caça, fez muitas perguntas. Depois pediu que o visitássemos no pequeno hotel da cidade, ao final do expediente.
Somente então ele abriu o jogo. Trazia um mapa de pano, surrado e encardido, que queria que eu traduzisse. Mostrou o mapa com grandes cuidados e ar de mistério. Fui o mais sincero possível: só por muito dinheiro. Farejei logo a ganância do velho e intuí que havia algo de muito valioso escondido no lugar a que o mapa levava, portanto não me fiz de rogado.
Adiantei algumas palavras ali mesmo, e o velho não só me deu uma boa gorjeta pela tradução como nos contratou para fazer o serviço. "Para que passar a outros, se vocês podem fazê-lo? Quanto menos gente souber, melhor. Basta buscarem a urna, e lhes pagarei por tudo o que gastarem e mais uma generosa recompensa."
Velho idiota, é claro que pagaria. E acabou pagando mesmo, muito mais que o prometido: quando cheguei ao hotel com a urna, o velho revirou os olhos, agarrou a peça de barro, soltou um rosnado estranho... e caiu duro no chão do quarto. De ter sido a emoção. Coloquei-o de volta na cadeira e saí levando a urna. O motorista deve ter me procurado depois de achar o defunto, mas eu me escondi com Anne, uma corista muito simpática que sempre me deu abrigo e algum afeto gratuito. Anne e eu fomos para o litoral vender a tal urna, e mais de um antiquário gritou ao vê-la, como se fosse algo de outro mundo. Vendi por coisa de cinco milhões, dei uma parte a Anne e botei o resto no banco. Voltei à cidadezinha para pagar minha promessa - se eu saísse vivo da fenda com a peça de valor, consertaria a igreja. Cumpri minha promessa e passei a viver com simplicidade, espantando as suspeitas de que eu tivesse algo a ver com a história do velho. Meu parceiro foi dado como morto em viagem devido à malária, e ninguém foi procurar seu corpo.
Somente dois anos depois resgatei o dinheiro e me mudei para cá. Desisti da caça e das aventuras. Pendurei meu diploma na parede - Professor de Ciências Naturais - e hoje dou aula às crianças. Cansei de correr perigo. Estou velho demais para isso.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

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