terça-feira, novembro 08, 2011

Pássaros feridos

Trabalho num ambiente limpo. As maçanetas são bem polidas e o chão é bem lavado todos os dias. Nem parece uma escola, podia ser uma enfermaria. Em nome dessa limpeza, as paredes da minha sala e a porta de madeira foram removidas e substituídas por imensas folhas de vidro. Assim entra mais luz. Para garantir o frescor, instalou-se um ar-condicionado potente.
Tudo ali é muito correto e honesto. Tudo organizadinho.
Do lado de fora, no jardim em frente à minha sala, tem uma fonte. Ninguém pode tocar nela, até porque fica no meio de um gramado e não se pode pisar na grama. Só quem pode brincar nela são os pássaros.
Todos os tipos de pássaros vão ali tomar banho, piar e brincar. É um lenitivo vê-los bagunçar na fonte, espirrar água e rebolar-se na grama. Até parece que eles não conhecem as regras, que não sabem que é proibido fazer bagunça, respingar água, fazer barulho. Não têm modos, esses passarinhos.
Hoje a fonte estava desligada. Alguém achou de mau gosto deixar aquilo borbulhando para essas aves imundas, alguém quis botar ordem na casa. As aves, tadinhas, sem sua preciosa fonte, ficam meio perdidas. Dão meia dúzia de voltas, pousam na grama confusas, e saem voando outra vez.
Isso acontece bastante; alguém desliga a fonte e deixa os bichos sem água. Se eu fosse pássaro, protestaria.
Algumas vezes é ainda pior: os pobres bichinhos, sedentos e confusos, levantam vôo e batem no vidro. Antes de demolirem a parede, ave nenhuma se chocava contra ela. Agora elas vivem batendo.
O Diretor aumentou ainda mais a "limposidade" do ambiente mandando vedar os beirais, para que as aves não tivessem onde ficar. Algumas se mudaram para as árvores da escola, outras simplesmente sumiram - devem ter morrido ao se chocar contra o vidro.
Apesar de toda a modernidade e correção do lugar, eu preferia que os pássaros não morressem. Não sei o que as pessoas têm contra eles. São sujos? Imundos? Mostrem-me algum ser humano que não seja. Sujo é quem detesta a natureza ao ponto de enlatar pessoas e odiar passarinhos.
Nossa fonte é visitada por muitos tipos de aves: pardais, sanhaços, bem-te-vis, tesourinhas, beija-flores, sabiás e outros "modelos" coloridinhos cujo nome eu desconheço. Pouca coisa na vida é mais divertida e agradável que vê-los brincar na água, ciscar na grama e pegar matinhos para fazer ninho. E agora com essa porta de vidro os coitados ficam confusos e muitos acabamse matando.
Há poucos dias um beija-flor morreu na minha mão. Hoje, um filhote de pombo, ainda meio bobo por mal saber usar as asas, bateu contra o vidro e morreu. Morreu na minha mão, agonizando silenciosamente, sentindo dor. 
Os pássaros morrem com dignidade, em silêncio, sem sujeira e sem estardalhaço - eles simplesmente morrem. E até para sofrer são delicados e elegantes.
Ninguém que eu já tenha atendido em sete anos de serviço público se compara a qualquer pássaro em termos de graciosidade, amabilidade, simplicidade e simpatia. As pessoas são ruidosas, enxeridas, autoindulgentes e más.
Cada vez que um pequeno pássaro morre na vidraça, morre um pouco da minha esperança. Cada vez que morre um pássaro eu gosto menos da humanidade.

3 comentários:

Larissa Bohnenberger disse...

Lindíssimo texto, Badá! Eu também aprecio a humanidade menos, a cada vez que uma história dessas chega até mim. Os homens e sua limpreza, sua organização, sua seriedade, sua frustração e sua infelicidade. E quem paga o pato são os animais. Lamentável.

Bjs!

Badá Rock disse...

É, Larissa, as pessoas têm muito o que aprender... quem sabe um dia desçamos do pedestal e sejamos humildes para seguir o exemplo dos animais?...

Luís Gustavo Brito Dias disse...

- que lindo, Badá. De fato, aprenderíamos mais se seguíssemos o exemplo de humildade dos animais.
Mas devo ser sincero e admitir que ainda acredito no humano - naqueles que podem fazer a diferença.

Como você tem feito falando sobre isso, por exemplo.

Pode parecer positividade demais, mas sei que lá fora, longe de nossas páginas, do www e das suposições sem metas, tem surgido mais pessoas, cada vez mais humildes e honestas [embora algumas vezes não pareça].

grande abraço,
cuide-se.