terça-feira, janeiro 17, 2012

A folia de Santos Reis

Comecei a ouvir a música lá longe, como se fosse imaginária, ou uma lembrança vaga e impertinente como as que surgem quando o dia está nublado e as horas parecem difusas e nunca sei se é manhã ou tarde ou que horas são.
Aos poucos os batuques e agudos se juntaram e formaram um círculo perceptível e sólido, e pude ver com meus próprios olhos o que aqueles sons desenhavam. Era uma memória antiga minha, que eu nem sabia que ainda tinha (foram tantas faxinas): a folia de Santos Reis.
Aqui mesmo, no mundo real, no Presente, havia uma folia de Santos Reis acontecendo!
E ao passo que isso parecia natural e simples, também me pareceu bizarro, mal colocado e vagamente medonho. A folia de Santos Reis não percente ao Aqui e ao Agora.
Tive medo de vê-la, de ver os palhaços aterrorizantes com suas espadas de pau e barbas de estopa... tive medo da bandeira, das flores, dos pandeiros... tive medo que aquilo me alcançasse e existisse bem na minha frente, e tive também vergonha ou estranho constrangimento.
É óbvio que eu tinha que me esconder. Mas havia a possibilidade de eles baterem na porta da minha casa e eu ficar acuada lá dentro. Ou eu podia correr para a rua e dar de cara com eles.
Os gritos da canção foram ficando mais agudos e longos, como uivos, e eu até podia ouvir os tacões das botas dos palhaços batendo no piso de cimento de alguma casa. Qualquer outro som se tornou nulo: eu tremia de ansiedade e expectativa.
Nunca entendi bem esse meu medo da folia de Santos Reis. São apenas um grupo de músicos e dois ou três palhaços dançarinos. Eles vão às casas das pessoas anunciar as boas-novas (o nascimento do menino Jesus) e recolher donativos para a festa do Divino Espírito Santo. E quando vão às casas, sua chegada é anunciada pela Bandeira do Divino, que é considerada sagrada. Algumas pessoas fazem pedidos ou agradecem as graças recebidas pendurando flores ou fotografias na bandeira. Quando você recebe a bandeira das mãos do mensageiro, significa que receberá a companhia na sua casa. Eles entram, cantam, anunciam o nascimento do Menino, pedem as doações e vão embora levando a bandeira. Além de um pouco pitoresco, deveria ser apenas mais uma manifestação religiosa tradicional, certo?
Não.
Algo nesta representação me é terrivelmente medonho. Não sei se é o fato de ser uma companhia só de homens e o som de suas vozes sair agudíssimo, ou se são as flores e a bandeira com vago toque mexicano (que sempre me lembra Morte), ou se são os terríveis palhaços floridos dançando e lutando com suas espadas de pau... ou se tudo isso parece antiquado e deslocado do Tempo, como houvessem dobrado a história e todos os antigos terrores extintos pudessem retornar à vida... pode ser que tudo isso se embaralhe na minha cabeça para criar um ligeiro ataque de pânico quando ouço o som da folia.
É claro que não fui vê-los. Não quis conspurcar minha memória deste evento com imagens atuais. Talvez meu medo seja esse: o de finalmente me dar conta que o passado já foi embora e que os tempos são outros, minha infância é morta. Não quero. Lembro-me com carinho da minha bisavó nos empurrando (vigorosamente, diga-se de passagem) para obrigar-nos a honrar a bandeira e assistir à dança dos palhaços. Ela era uma mulher de costumes severos e antiquados, como convém a toda bisavó. Não quero apagar da minha lembraça o cheiro da grama pisoteada depois que os palhaços iam embora, ou a imagem da companhia chegando, festiva e colorida, e os cães do sítio enlouquecidos de medo e curiosidade. E também havia as Festas do Divino, as mais belas festas do interior, feitas para juntar o povo e comemorar a esperança que nos dava o nascimento de Cristo. Finalmente, o Messias veio! As pessoas trocavam presentes como os Magos haviam presentado Jesus. Comia-se e bebia-se bem e às custas dos donativos, que eram generosos. Por que eu estragaria todas essas memórias com a visão de um arremedo de folia que passa de porta em porta em pleno século XXI, tentando recuperar à força uma tradição esquecida, cujo público atual não tem o perfil de mantenedores nem de participantes da festa? 
Mal consigo imaginar os atarefados e moderninhos cidadãos urbanos de hoje tirando fotos com seus iPhones e BlackBerries para postar no Facebook. Isso seria uma desonra ao cunho espiritual e amoroso da festa. Leva-se esperança e alegria a uma casa (e provavelmente muitos pesadelos às crianças que moram nela), e ao invés de participar, as pessoas ridicularizam este esforço... Não.
Recuso-me a reconhecer a existência atual da folia de Santos Reis. A folia é uma memória ambígua do passado, que ao mesmo tempo que me enche de medo, também me lembra quão boa era a vida quando eu era criança e vinha da Capital passear no sítio da minha bisavó. Era quando eu pisava em espinhos, cortava os dedos e ralava os joelhos brincando com os cães, o cavalo e as outras crianças, igualmente raladas e sujas de terra, mas todas felizes e cheias de vida. Nadávamos no rio limpo, andávamos no meio das vacas e bois fazendo carinho em suas caras macias, e nenhum de nós tinha medo ou vergonha de nada disso. E se a lembrança da folia de Reis está associada à memória da minha infância, que seja: vou guardá-la. Digamos que as férias acabaram e voltei para a cidade, dessa vez permanentemente, e se um dia eu voltar ao sítio vai estar tudo lá: cães, bois, crianças sujas de terra, minha bisavó e sua amada Folia. Aí sim eu aceitarei de bom grado ser arrastada à força para assistir à festa.

3 comentários:

De Tudo um Pouco disse...

Texto maravilhoso. Emocionou-me até às lágrimas. Obrigada Regina Celia Akahoshi

Christiano disse...

Maravilhoso mesmo. Identifiquei-me com cada frase, pois também tinha um medo inexplicável desses folguedos, fosse qual fosse, ficava em casa espiando pela brecha da janela, fascinado e assombrado.

Luís Gustavo Brito Dias disse...

- eu sempre gostei dessas festas porque na minha cidade tudo terminava em pratos e mais pratos de comida. ainda temos algumas tradições, mas nada como os olhos fantásticos da infância.