terça-feira, janeiro 03, 2012

Mogli e eu

É estranho como com o passar do tempo sinto-me cada vez menos parte da humanidade.
Parece que sou uma espécie de Mogli que foi achado na selva e nunca conseguiu compreender ou se adaptar ao mundo civilizado.
Só que eu não fui achada na selva, eu nasci em Santo André, em meio ao barulho, poluição, perigos urbanos, aluguel, trânsito, modernidade e a coisa toda.
Quando vou ao supermercado olho com verdadeiro horror as prateleiras e nem imagino como as pessoas têm coragem de colocar aquele lixo no prato, na boca. Claro que eu sempre comi aquele lixo. É que de uns tempso para cá meu corpo recusa. Acha que manda em mim. Quer decidir o que eu como.
E também o que eu visto, assisto, bebo, passo na pele.
E principalmente o que eu ouço. Quando ouço certas pérolas da humanidade, meu estômago revira, como se quisesse devolver o detrito ouvido do mesmo modo que devolve comida estragada, veneno, etc.
Estou ficando chata, é óbvio. Chatíssima. Tenho consciência disso.
Por exemplo: dou pouquíssima importância a certas coisas que as pessoas consideram cruciais. Esses dias tive uma crise de riso assistindo a uma sessão da Câmara dos Deputados em que uma mulher agradecia copiosamente a presença de "membros da liderança" de um partido qualquer. Liderança? Eles lideram quem? Só se eram os líderes de gangue ou coisa assim, porque até onde sei gente honesta não vai atrás desses caras. Eles realmente levam a sério essa lenga-lenga! Era possível ver que ela realmente estava concentrada no que dizia e acreditava naquilo! Qual o grau de alienação que um ser humano é capaz de alcançar? Incrível!!!
Do mesmo modo desprezo certas burocracias, bajulações, convenções sociais tolinhas, noticiários e outras cretinices.
É-me doloroso perder meu tempo sagrado dando ouvidos a tais mesquinharias. Tempo que eu poderia aproveitar brincando com gatos, lendo obras de literatura, dormindo ou descansando, mexendo na terra, olhando as árvores, conversando com bichos - por mais ignorantes que eles sejam. Porque eu sempre serei mais, e tenho muito que aprender, e jamais aprenderei nada se perder meu tempo dando atenção a políticos, jornalistas, socialites, pedagogos, demagogos e mecânicos de automóvel. Eles só falam o que lhes interessa e tudo é por dinheiro. Enquanto isso lá fora os pássaros piam, os caramujos se arrastam e as formigas picotam plantas; isso tudo é muito mais importante e necessário, e sinto-me roubada e desrespeitada por não poder estar lá aprendendo com eles.
Daí acabei por tornar-me chata, primitiva, blasé e teimosa, de modo que não preencho os requisitos básicos de civilidade para conviver com humanos, graças ao bom Deus. Só que não tem lugar para mim fora da sociedade porque ainda não evoluí a ponto de me tornar um animal, de comer só comida de verdade, de ouvir só o que mereça ser ouvido, andar corretamente, dormir corretamente, viver corretamente. Tudo o que eu faço ainda é humano, falho, tosco, errado e mau.
Agora que estou no meio do caminho não sei para que lado vou: se abandono de vez qualquer traço de caráter e integridade e deixo de lado qualquer consciência - e torno-me assim um humano rematado e incorrigível, ou se tento tornar-me bicho, levar as coisas a sério, entender a vida e ter consciência dela.
Por enquanto estou em pausa. 
Comendo bananas.

Um comentário:

Luís Gustavo Brito Dias disse...

- passando mais tempo com os gatos, sentindo a sombra das árvores e o perfume das flores que as formigas preferem têm sido, com toda certeza, a maior das gratificações de ser - mesmo que às vezes oscilemos entre a dúvida e as incertezas [no fundo, a mesma coisa].

grande abraço.


cuide-se.