sexta-feira, maio 18, 2012

Travessia

Éramos dois jovens parentes num balão. Na verdade era uma jangada, mas pendurada a um balão que cortava mansamente as nuvens de um dia fresco.
Além de nós dois, havia mais familiares. Perto de nós, repousando, provavelmente um velho ou um bebê (somente os velhos e bebês sabem ignorar as pessoas com propriedade). Afastados, meu pai, minha mãe e um moço escuro e seco que cuidava das bestas de carga.
Enquanto vagávamos pelo céu demorado e claro da nossa jornada, íamos conversando sobre nossas vidas. Falávamos baixo, com poucas palavras, frases entrecortadas e sussurros - afinal, já sabíamos tudo um do outro. Não era preciso dizer muita coisa.
Minhas mãos pardas e finas saíam das dobras da seda e buscavam ansiosas alguns pequenos objetos rústicos, pequenos tesouros singelos: pedrinhas, botões de madrepérola, um apito de bronze e ágata, e as correntes da gaiola das aves. Meu rosto, meio oculto pelo véu, estava fino e cansado, mas era belo como são os rostos de todas as moças fortes.
Deitados sobre as almofadas rotas que tiramos dos camelos, esperávamos que meu pai terminasse de fazer a sopa; na outra ponta da jangada, ele cozinhava sobre um minúsculo fogareiro, e o vento espalhava o cheiro de cebolas à nossa volta.
Lá embaixo, os prados verdes e arborizados em nada lembravam nossas areias pálidas pontilhadas de tendas e pequenos oásis de plantas raquíticas.
De vez em quando um córrego ou lago nos chamava a atenção pelo brilho das águas azuis que desconhecíamos, e nos lembrávamos de nossos sonhos de crianças, em que imaginávamos como era o mar. Quando vi o mar pela primeira vez, chorei enfurecida e rangia os dentes, devido a tantos dos nossos terem sido privados de tamanha beleza e fartura antes de morrer. 
Minha mãe, cega e já muito velha, nos avisava das águas porque lhes sentia o cheiro. Sobre seu tufo de mantas, ela farejava o ar, vigiando-nos, buscando em nós indícios de transgressões.
Eu e ele nos olhávamos pouco, porque exigia o recato que eu mantivesse baixos meus tímidos olhos negros. Os dele, cor de noz, estranhos e muito brilhantes, inquietavam-se em seu rosto castanho e liso de moço ainda novo.
Não sei o que havia acontecido aos outros parentes, mas não tinha saudades deles. Sabia que existiam ou haviam existido, mas a mim pouco importava; estávamos indo para longe, para a borda do mundo, para onde havia riqueza e segurança para todos.
Lá longe, atrás de nós, do outro lado das montanhas, ficavam as minhas lembranças, que já não valiam nada, como também nosso ouro e nossas gemas pouco valiam para os brutos caçadores que buscavam peles de urso e comiam peixe fresco e cerejas. Suas crianças cresciam juntas e descobertas, brincando como lebres entre as touceiras de ervas cheirosas e macias. De qualquer forma, carregávamos conosco as riquezas que cabiam em nossos alforjes e dentro da boca.
Meu pai, silencioso, acenava chamando para a refeição. Minha mãe foi servida primeiro, e bebericava com parcimônia o líquido grosso que fumegava na cumbuca. Depois de nos refazer, ajustamos o leme da jangada e dominuímos a velocidade, pairando preguiçosos por sobre as colinas enquanto o sol se guardava no oeste.
Nossa conversa baixava de tom, e logo tornou-se monossilábica e simples como a linguagem dos amantes, e apenas nos olhávamos lânguidos sem saber como fugir da vigilância da minha mãe sempre alerta. (Mais alguns dias de viagem e teremos sofrimento. Devemos orar, portanto, com devoção e coragem, para que nos seja tirada a promessa de carinho que se anuncia em nossos espíritos.)
Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram.

Um comentário:

De Tudo um Pouco disse...

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