domingo, setembro 30, 2012

O orfanato

Foto: Christiano Galvão

Nunca havia visto outras pessoas. Às vezes, perguntava-me se a mulher não mentia, se não éramos só nós no mundo. O mundo não poderia ser tão grande como ela dizia.
À volta do prédio, apenas o silencioso pátio onde de dia, ouvia-se o suave chiado do vento nas ervas daninhas, e à noite apenas os piados lúgubres das aves noturnas.
Os portões de ferro quase nunca se abriam. Seu rangido lamurioso parecia cortar a alma de quem o ouvisse; era como se abrissem as portas do próprio inferno, como se estivéssemos expostos e indefesos.
Certa vez a mulher fez pão: não era sempre que o tínhamos, e quase sempre nos contentávamos em comer biscoitos duros molhados no leite de cabra. 
Trouxe grossas fatias quentes e um pedaço de manteiga já não tão fresca, mas ainda saborosa. Neste dia ela disse que precisaria sair por um tempo. Não nos disse quanto tempo. Olhamo-nos silenciosos e depois, suplicantes, fitamo-la esperando um esclarecimento. Não nos disse muito mais, e com estranho laconismo, apenas disse que "nada de mau poderia acontecer" e que "ninguém vem aqui mesmo", e depois "acho que nos esqueceram".
Deixou-nos recomendados ao capelão e ao jardineiro, duas figuras que pouco víamos e que, talvez, temíamos. O capelão ocupava um casebre junto à cerca e o jardineiro dormia nos fundos, num quartinho com ferramentas.
Éramos apenas oito crianças. Três garotas, uma delas bem pequena e que não queria falar. Eu falava, mas bem pouco, porque ninguém nunca ouvia, e porque minha voz às vezes me assustava. Nos corredores do orfanato, nossas vozes ecoavam estranhas: às vezes pareciam vozes de anjos, às vezes pareciam os grunhidos das bestas.
Na manhã seguinte veio um carro. Já o tínhamos visto muitas vezes, pois era o mesmo que trazia tecido, farinha, remédios e outros bens necessários. Sacolejante e coberto de pó, fazia um barulho incrível e sempre me assustava muito, porque adentrava os portões e vinha quase até a porta, soltando fumaça preta e cheiro de óleo.
A mulher se aprumou no banco do carro, avermelhada de calor, e não olhou para nós quando partiu. Levava apenas uma mala pequena, mas não tinha muita coisa, e usava sempre o mesmo vestido.
Ficamos todos agarrados à grade enquanto o carro diminuía, até que tomou a curva e sumiu. Sem saber o que fazer, voltamos ao casarão, pensando em pegar nos livros.
Alguns de nós liam muito bem, e Ana nos ensinava (Ana era a menina mais velha, tinha quase quatorze anos, e era boa em leitura).
Naquele dia ninguém nos mandou tomar banho, e quando escureceu, procuramos o que comer na despensa, pois ninguém veio cozinhar.
À noite, quando os grilos começaram a cantar, propus dormirmos todos no mesmo quarto, porque estava com medo. O casarão parecia ainda mais velho e vazio sem a mulher por ali.
Mais tarde, quando o cruzeiro já estava fora da vista, espiei pela janela e vi o portão aberto. Mas em nenhum momento ouvi seu rangido triste, por isso achei que estivesse sonhando.
Pelo caminho do portão até a porta, vinha um velho de chapéu. Parecia ser um velho porque estava bem curvado, e trazia uma bengala fina em sua mão direita. Na outra mão, um pequeno lampião com um toco de vela. O velho vinha devagar, e no meio do caminho, parou, olhou em volta (tudo estava muito escuro, não sei o que procurava), levantou a cabeça devagar e me olhou nos olhos. Eu sei que eram seus olhos, porque os vi, mas pareciam duas luzes, duas estrelas, duas fagulhas de fogo.
Abaixei-me depressa e prendi a respiração. Ninguém mais estava acordado, não havia o que fazer.
Esperei até que pudesse ouvir o som das botas do velho na escada; e hesitava entre fugir para fora ou trancar a porta. Não podia ser o jardineiro? O capelão era gordo, mas o jardineiro não. Mas o jardineiro era moço, e não tinha os olhos em chamas, e não vinha a este lado do pátio, e era por isso que o mato crescia.
Fiquei bravo com meus pensamentos. Não era hora para divagações, o velho vinha a qualquer instante, e nos agarraria... e depois faria o quê?
Decidi fugir correndo, derrubá-lo no corredor e ir até o casebre. Quando ouvi a porta abrir-se, não pensei duas vezes - livrei-me dos lençóis e corri. Quando passei pelo velho, senti cheiro de enxofre, vinho e bolor. Ele agarrou meu braço com seus dedos frios, mas puxei a camisa e deixei parte dela para trás. Quando alcancei a porta, ouvi o murmúrio do velho, que parecia praguejar, indeciso entre continuar ou voltar em minha busca.
No pátio do orfanato, tive medo do escuro, pois a lua fraca mal iluminava nada, e eu estava descalço e muito nervoso. Queria muito voltar para dentro, mas a figura do velho me desanimava até a morte. Preferia enfrentar a escuridão.
Corri à casa do capelão. O sujeito vivia para comer e rezar o terço, e nunca nos dava atenção. Poucas vezes vinha ao salão do prédio para fazer orações com a mulher que nos olhava; ele e ela nunca conversavam durante o dia, e acho que se detestavam.
Bati na porta várias vezes, e depois encostei o ouvido na porta: apenas o ronco leve e paciente do capelão, que provavelmente dormia de barriga cheia e com um rosário na mão.
Fui até o portão de ferro. Estava mesmo aberto, mas como? Olhei para a janela do quarto, e lá vi uma das meninas - a pequena, que não falava. Ela estava com a boca aberta, e olhava para mim. Parecia gritar, mas eu não ouvia nada. Lá dentro, uma luz fraca e trêmula se movia pelo quarto. Não ouvi os outros meninos.
Passei pela grade e saí correndo. Via, muito longe, pequenas luzes, que julguei serem estrelas, porque nunca acreditei que fossem casas. Mas se só havíamos nós no mundo, de onde vinha o velho? Meus pés descalços batiam a terra seca e os carrapichos se agarravam às minhas calças, arranhando meus tornozelos, mas não parei para tirá-los, porque imaginava que o velho viria, me alcançaria, e suas mãos ossudas me arrastariam de volta para o orfanato, para juntar-me às outras crianças que lhe serviriam de banquete...
Corri o mais que podia, até que cheguei a um grande pasto de capim macio, onde vi alguns cavalos e mais adiante, um casebre. Era muito humilde e baixo, mas parecia habitado, então tudo estava certo.
Bati na porta. Abriu-se quase instantaneamente e surgiu uma vela acesa. Uma senhora parda, bem velha, sorriu com olhos bondosos e me acolheu sem falar. Dentro do casebre, um leve odor de enxofre, vinho e pão bolorento.

3 comentários:

Luís Gustavo Brito Dias disse...

- sensacional, Badá.

como escapar agora do "leve odor de enxofre, vinho e pão bolorento"?

a maneira como você conduz a história revelando o cenário e as pessoas, diz muito dos anseios do íntimo de cada um dos personagens.

confesso que me lembrou muito o filme Ninguém Pode Saber de Hirokazu Koreeda.

Até mais, Badá.

Badá Rock disse...

Obrigada! A foto realmente inspira a um clima estranho, desconfortável.

Prety Joe disse...

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Prety Joe
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