terça-feira, novembro 20, 2012

As pessoas novas

E vocês, pessoas novas, que surgem na minha vida, a princípio incômodas, cheias de espinhos e crostas, vocês que vão abrindo caminhos por meio da minha timidez camuflada de arrogância, e vão se permitindo falar comigo - quando eu mesma não permito - e vão se enfiando em minha vida; vocês não sabem o quanto dói aceitá-los aqui dentro, dentro do meu velho e empoeirado sótão, onde guardo minhas velharias de infância, algumas músicas boas e alguns parentes queridos.
Não que aceitá-los machuque, de maneira alguma, nem que sejam pesados demais ou estranhos: são todos até bem familiares, e até bastante leves, talvez. Mas é que dói em mim achar lugar para acomodar seus vestígios, e arrastar minhas caixas e memórias antigas para que caibam as suas pessoas novas em folha, limpinhas de tão pouco uso, e com diálogos frescos.
É que sou um velho museu pouco frequentado, quase abandonado (como deveriam ser todos os repositórios de velharias), silencioso e abafado em sua existência estática, com úmidas teias estranhas que vão se engrossando com o passar dos séculos, e cujo odor lembra o dos sonhos, das memórias fugazes e dos deja vus.
Queria poder manter-me assim, mas as salas da minha alma são invadidas por calor humano, por sorrisos de dentes à mostra e por tolices faceiras, e aos poucos sinto como se tudo em mim se animasse e o velho prédio se sacudisse, soltando-se de seus alicerces, e saísse por aí a trocar passos hesistantes como os dos bebês, a ranger engrenagens antigas e aquecer velhos filamentos.
Vocês, pessoas novas, tiram-me do torpor monótono e confortável de minha solidão, e ocupam meus devaneios com suas caras coloridas e estranhas, e acabam por arranhar meus móveis e deixar pegadas nos meus tapetes. Deste modo não sou o centro da minha vida, tendo que admiti-los aqui, no meu ser, e carregá-los para todo canto, a consultá-los em pensamento sempre que posso fazer algo à toa.
Ao me empurrarem para o lado, me apertam, jogam fora coisas minhas (e colocam as suas no lugar), e vão-se instalando sem maiores cerimônias, me chamam de qualquer nome e riem da minha cara.
E assim, pouco a pouco, assumem ares de coisa definitiva. Exigem de mim algum zelo, alguma bajulação (não com esse nome, mas outro) e se tornam um hábito. Quando me dou conta, vocês marcaram para sempre seus nomes em meus livros imaginários e fazem parte da minha estrutura. E passo a ser vocês, mas em miniatura, e carrego todos como uma aranha carrega seus filhotes e os ama, mesmo sendo, como são, aranhas - e não anjos de candura ou dinheiro, sei lá.
Vocês, pessoas estranhas, vocês poucos que puderam entrar, agora não quero que saiam, porque já os amo em mim, e ainda que sumam, amarei suas memórias, as marcas dos pés, os riscos nos móveis, os reflexos que os espelhos da minha alma guardaram.
Sem vocês eu morreria.
Só peço que, ao entrar, sejam suaves, e ao sair, sejam breves, e enquanto permanecerem, sejam simples, porque assim caberão todos, e serei, assim, felizes.

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