quarta-feira, novembro 28, 2012

O plano

Zafira olhou por sobre o ombro esquerdo. Atrás de si, no salão do palácio, doze heróis de guerra contavam seus feitos e celebravam suas vitórias com vinho, música e aromas.
As dançarinas, intoxicadas pela fumaça, moviam-se em transe, com seus olhos baços, e deslizavam languidamente os dedos pelos dorsos dos leopardos que circulavam pelo aposento, procurando restos do banquete dos guerreiros.
A música inebriante ondulava sombria pelos corredores de pedra, entrecortada por risos e sons de golpes de armas.
Bem humorados, os valentes lutavam entre si, e Zafira os observava, como a um bando de meninos agitados nos pátios.
Constultaria o mago, pensou - exigiria a resposta para tamanho descontentamento.
Sete luas de batalhas, onze cidades rendidas, dois rios conquistados, oito poços de plemenite, duas naves de guerra e mais de cem híbridos Lepa. Tudo ia bem. O Rei Pravice, enlevado pela própria vitória, absorvia os aromas de olhos fechados e sorriso no rosto, deixando-se relaxar até um torpor de semiconsciência que misturava sonhos às memórias recentes da guerra.
Zafira queria suas próprias vitórias. O controle de Domena não lhe saciava a sede de poder; era uma mulher sombria, de furtivos olhos dourados e brilhantes e pele cor de camurça.
As carnes nuas dos soldados dourados pela estrela lhe causavam repugnância, e ao contrário das outras cortesãs, jamais embarcava nas navilhas dos síngaros, nem aceitava suas drogas. Seu maior desejo era o trono de Pravice, e este agora jazia sonolento no divã, enquanto uma plesalka de ébano se contorcia ao som da música para seu contentamento.
Havia de trazer Junak, que descansava em Domena, para ajudá-la no plano. Os híbridos lhe seriam úteis, com seus jogos mentais, para dominar a fortaleza de Pravice. Junak era um homem neutro, e jamais questionava ordens, quando lhe pesava o alforje e suas bolsas de plemenite.
Faria dele seu parceiro, e lhe daria vitórias, seu nome em romances, bolas de ouro e quaisquer outras coisas que desejasse... se Allerit fosse inteiramente seu, com seu satélite negro e todas as suas riquezas.
Todas as profecias traziam a imagem de uma mulher, e mesmo o abjeto oráculo atual sempre citava em suas visões as garras de uma fêmea sobre o coração de Allerit. Haviam de ser as suas.
Zafira trouxe uma bandeja. Sobre elas, especiarias, aromas entorpecentes e vinho velho. Seu sorriso cortês fez seu irmão suspirar de alegria, e os heróis a comprimentaram com exageradas mesuras. As plesalkas cobriram seus rostos em respeito a sua formosura. Zafira os odiou cegamente: todos sabemos que tais reverências são mera formalidade. Até as bestas e os leopardos a olhavam com piedade. Seca. Murcha. Inumana.
Saiu do salão com passinhos leves e rápidos de princesa, enquanto Pravice e seus guerreiros consumiam suas porções de veneno.

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