domingo, dezembro 09, 2012

A estrela

Subi no palco cansado. Sabia que seria a última vez.
Ouvia os gritos da plateia e não sentia aquela corrente elétrica que me percorria antes, que queimava meus fusíveis e me fazia sentir imortal.
Agora, estava entendiado, diante de milhares de criaturas miseráveis que se agarravam à minha imagem como se eu fosse um mito, uma lenda.
Eu não sou nada disso.
Vi minha mãe morrer lentamente, numa batalha lenta e cruel contra o câncer, e não pude fazer nada. Meu pai, arrasado, bebeu até enlouquecer - ou porque tinha enlouquecido - e vive sozinho. Não quer ver ninguém. Minha irmã vive uma vida medíocre numa cidade grande onde ninguém se conhece e suas filhas nunca viram o campo, o mato, nunca brincaram na terra.
Estou cansado de tocar. O que eu digo já não é o que quero dizer. No começo era; mas o público cria expectativas e agora só posso dizer o que querem ouvir.
Um grande executivo da gravadora cortou oito músicas de um álbum novo porque "iam decepcionar os fãs".
Fãs.
Que palavra insuportável.
São como ervas parasitas que cresceram no meu tronco e que sugam a vida e não me permitem criar, crescer, abrir minhas asas ou projetar meus galhos imundos sob a luz do sol.
Os outros caras da banda se conformam: o dinheiro é bom e eles gostam de viajar, curtir a vida. Mas para mim isso não é curtir a vida. Usar banheiro de avião e comer lixo de lojas de conveniência não é curtir a vida. Não posso andar na rua, ir à banca de jornal, dar uma volta com a minha mulher.
Há tempos não faço nada disso.
Minha mulher não reclama, mas ela quer ter filhos, quer me contar como foi seu dia, quer ir à praia. Eu não posso fazer nada disso. Não sou um companheiro para ela, sou um fardo.
Às vezes queria que ela arranjasse outro cara menos paranoico, alguém mais simples e feliz.
Mas não tenho tempo para discutir relações, nem para me divorciar. Além de tudo ela me faz bem e preciso de alguém como ela, confiável e que não me cobre o tempo todo para "curtir a vida".
Eu quero que a vida se dane.
Mais uma vez eu começo o show. Aos primeiros acordes todo mundo uiva como lobos feridos; esta música é um statement, uma obra-prima, que na época significava minha própria essência e como eu via o mundo. Hoje, é apenas uma repetição mecânica do mantra cósmico que encheu meus bolsos de dinheiro e botou uma corda no meu pescoço: se você se afastar muito, vai se enforcar.
Malditos fãs. Vocês me amam sem me conhecer. Sabem tudo da minha vida: onde vou, com quem durmo, o que como e o que faço. Sabem o nome do meu cão e das minhas sobrinhas, o meu prato preferido e a que eu sou alérgico. Mas não me conhecem. Nada. Não sabem quem sou sob a pele, meu ardor, minha luta, meu maior medo. Não sabem com o que tenho que lidar quando abro o chuveiro e a água morna me limpa de toda a melancolia e escorre com meus sonhos para o ralo, me deixando sóbrio, correto, mas sem um pingo de vontade de continuar.
Eu não vou tolerar essa violência.
Grito desesperado ao microfone como quem grita ao próprio Deus; não odeio vocês, mas preciso de alguém em quem possa me apoiar, não posso ser dessa maneira, não posso sentir minha garganta ser apertada por suas garras egoístas.
Me sinto tão pequeno.
E durante o show inteiro respondo com brutalidade, com fúria: destruição, auto-destruição, raiva, impotência, caos. Lançam coisas para mim: camisetas, óculos, flores, bandanas, mensagens. Pequenos pedaços de suas almas miúdas e tímidas. Querem ser deuses. Subam aqui e verão que não sou nada disso, sou menor e pior que vocês.
Ouçam a letra dessa música: ela fala do que eu era. Eu era como vocês: cheio de desejo, de inocência e de vontade de fazer algo novo. Eu era um vulcão em erupção.
Agora mastigo um cigarro enquanto soletro esses versos olhando para o horizonte, e parece que estou cantando, mas este é um lamento de dor.
Dedilho simples minha armadilha, e dela sai beleza, fúria e um adeus. Este é o presente da minha alma.
Esta noite vou dormir com os anjos.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

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