segunda-feira, dezembro 17, 2012

Festas de fim de ano e o fim do mundo


Este ano é um ano especial. Além de todos os sucessos dos doze meses de glória que compuseram esta data singular, é bom lembrar que este é o ano do fim.
Sim, todos os seus esforços serão recompensados. Neste fim de ano, teremos, como é de praxe, maravilhosas festas de confraternização em que as pessoas se entopem de rabanada e trocam quinquilharias em festas constrangedoras em churrascarias, ou em casa de parentes com os quais temos relações de amor e ódio e situações financeiras mal resolvidas. Mas além das citadas festas, teremos também um evento vistoso, feliz e realmente importante: o Fim do Mundo.
Também conhecido como Armagedon, Fim dos Tempos, ou como singelamente diriam nossos irmãos lusitanos, o Armagedão, o Fim do Mundo é um evento ansiosamente aguardado pelo mundo inteiro, desde sempre – tanto é que a cada dois ou três ou cinco anos anuncia-se este evento, que infelizmente nunca acontece.
Mas desta vez pode ser diferente; dizem que os Maias previram que desta vez é o fim mesmo (mas eles não disseram nada disso, apenas encerraram a publicação de seu calendário).
Na lufa-lufa de compras de Natal, consumismo desenfreado de bugigangas inúteis, comilança descontrolada de nozes e panetones gordurosos, carnificina furiosa de animais para a ceia e outras atitudes completamente injustificáveis e absurdas, ainda arrumamos tempo para planejar o fim do mundo com requintes de sofisticação jamais igualados nas outras edições do evento.
O fim de ano é época de crianças ranhentas e gritalhonas rolando no piso dos corredores de lojas, gordas patéticas agarrando pernis na seção de frios de supermercados, sujeitos marrentos arrastando fardos de cerveja para os carrinhos de compra, velhinhas infernizando os solícitos repositores de gôndolas, abatedouros fazendo hora extra para sacrificar milhares e milhares de bichos cujos restos mortais serão o festim de famílias já bastante problemáticas sem a dose reforçada de hormônio e gordura, além de o trânsito se transformar num campo de batalha em que vence quem é mais estúpido e inconseqüente.
Acrescente a isso a maior e melhor festa de fim do mundo, em que todos querem somente o bom e o melhor (já estão estocando água e enlatados desde o fim de outubro para que nada falte), com pequenos focos de guerra inútil pelo mundo afora e os países em desenvolvimento metendo os pés pelas mãos entorpecidos por seus próprios triunfos. Quem não vai comemorar o título de seu time do coração, enquanto faz orações para conseguir pagar as contas em janeiro e obriga o filho a comer tudo porque há crianças famintas na África...?
As festas de fim de ano já têm sua fórmula pronta, mas as festas de fim do mundo são muito mais emocionantes: não sabendo se devemos comemorar ou lamentar, fazemos um misto dos dois, e no dia seguinte é sempre decepcionante e prazeroso verificar que, na verdade, o mundo não acabou. Assim como o ano novo não é novo, nada muda, a vida segue, não cumprimos nossas resoluções nem nos importamos de passar por moles, frouxos e fracotes.
Bem, como sabiamente dizia minha bisavó, o fim do mundo é pra quem morre, então para os que tiverem a sorte de bater as botas no dia 21/12 não haverá decepção – é bom comer rabanadas e distribuir presentinhos nos dias que antecedem a festa.
Eu não sou do tipo mau humorada, não fico resmungando como aquelas tias chatas que fingem não gostar de Natal para chamar a atenção. Eu entro na brincadeira, compro presentes, faço brinde, tudo como manda o figurino. Não que eu ache isso o máximo, mas as pessoas esperam que sejamos normais. Então vamos nós, mais uma vez, passar por tudo isso de novo, gentarada, multas de trânsito, cansaço, gastança – mas desta vez, pelo menos uma vez, o mundo podia acabar de verdade.

2 comentários:

Larissa Bohnenberger disse...

Badá, eu queria ter escrito esse texto! Juro que queria! Eu até gosto de entrar na brincadeira natalina, embora pra mim ela não tenha nenhum significado maior do que festa em família. E sobre o fim do mundo? Eu torço!

Bjs!

Badá Rock disse...

É, eu também brinco por causa da família... e o fim do mundo seria ótimo!