segunda-feira, março 04, 2013

O tesouro

Sentei-me no chão da sala e olhei em volta. As paredes, forradas de finas sedas e valiosas tapeçarias, eram de perfumado pinheiro branco.
À minha frente um baú: simples, limpo e sem adornos. Tirei a longa chave da manga. Ela esteve comigo por muitos anos, desde sempre, e suas origens se perdem na bruma das eras.
Estava calmo e satisfeito. Sabia que o tesouro ali contido era o remédio de que meu espírito necessitava: como a água fria de um ribeiro manso, haveria de refrescar-me a alma e me limpar-me de todo o cansaço.
Girei a chave três vezes, e ouvi um estalido: a fechadura azinhavrada se abria, e com um frêmito de curiosidade, ergui a tampa. Dentro do baú forrado de veludo vermelho, apenas um diminuto livro encadernado. Sua capa, de madrepérola, reluzia à luz da vela amarela que queimava lentamente sobre a mesinha, e até a chama parecia alegrar-se curiosa para ver seu conteúdo.
O livrinho se abria aos poucos, em vários compartimentozinhos que continham segredos. Os segredos se manifestavam por meio de adágios, escritos em papel de seda, em delicada aquarela de várias cores, sobre intrincadas dobraduras que representavam, cada uma, um sonho. Dentro de cada sonho, um enigma: uma escultura tão leve quanto a asa de um inseto.
Os segredos de cada compartimento se complementavam, e diante de meus olhos vi abrirem-se as páginas de um novo mundo, um mistério.
Boquiaberto, cerquei-me desse tesouro. Por séculos meditei sobre suas pistas, suas indicações. A cada momento do dia uma nova inspiração me surgia; e incomodado, vasculhava minhas memórias e meu coração. A cada novo desafio vencido, sentia-me revigorado e jovem.
Pouco a pouco, montei o quebra-cabeças, e com os fugazes filamentos luminosos que cruzavam meus pensamentos, teci essa teia, tão ansiosamente almejada.
No momento da conclusão, tornei-me de fato um herói: Ao desvendar a charada, encontrei a resposta para mim mesmo.

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