quarta-feira, abril 30, 2014

Renovação

Ajeitou a lapela do casaco e olhou o próprio reflexo no vidro da prateleira. Mordeu a ponta do dedão. Era realmente um azarado. 
Havia sido deixado pela amante por meio de um simples bilhete, recebido no dia anterior, à hora do almoço, depois de ter sido recusado em três entrevistas de emprego e de ter tido uma desagradável discussão com a esposa alguns dias antes.
Tudo lhe parecia abafado e morno. 
Desceu as escadas devagar, revirando a chave do carro entre os dedos. Voltaria ao antigo escritório, para trabalhar com a chefe autoritária, e dois colegas absolutamente estranhos (desconfiava que um deles fosse russo ou tivesse algum transtorno). 
Havia imaginado tanto para a própria vida. Havia almejado tantas coisas. Seus planos eram saudavelmente realistas e em nenhum momento quis algo de inalcançável. Ainda assim, seus esforços foram insuficientes.
Abriu a porta de correr que dava acesso à rua e sentiu mais frio do que esperava. Estava contrariado e sentia-se gasto e velho. Não era caso para chorar, mas havia uma expressão birrenta e furiosa em seu rosto. Queria mandar todo mundo à merda. 
A caminho do trabalho, guiou distraidamente, evitando ruas lotadas e áreas comerciais. Mastigava sem vontade um cigarro enquanto ouvia o chiado do rádio. Por um momento, hesitou entre voltar para casa e seguir em frente. 
Reduziu a velocidade em frente a uma loja pequena e vazia do centro. Na vitrine, manequins semivestidos com os lançamentos da moda, um cartaz de promoção, bugigangas sem valor. 
Parou o carro, entrou na loja e fez umas compras. Chapéu, algumas camisetas brancas, algumas revistas. Suas últimas cédulas foram morosamente passadas para a mão da moça do caixa, que o olhava com autêntica indiferença. Entrou no carro, acendeu outro cigarro e virou na próxima esquina. 
Refez seu caminho como se voltasse para casa. Passou em frente ao prédio, mas não parou. Seguiu em frente até a rodovia. Olhou o marcador de combustível e concluiu que não precisaria parar por um bom tempo. Dirigiria enquanto pudesse. Dirigiria sem parar. Desligou o celular, aumentou o volume do rádio e desejou que jamais tivesse que fazer o caminho inverso. 
Haveria de esquecer o próprio nome.

3 comentários:

Luís Gustavo Brito Dias disse...

Badá, eu adoro a maneira como você escreve. De verdade. Digo isso sem firulas!
Acho que suas composições sempre trazem mensagens que nos fazem refletir sobre o significado de nossas vidas. Phoda.

Luís Gustavo Brito Dias disse...

Badá, eu adoro a maneira como você escreve. De verdade. Digo isso sem firulas!
Acho que suas composições sempre trazem mensagens que nos fazem refletir sobre o significado de nossas vidas. Phoda.

Badá Rock disse...

Muito obrigada, Luís Gustavo! Também adoro a fluidez dos seus textos, até compartilhei essa impressão no Facebook...