domingo, dezembro 20, 2015

A última ação do ano

A gangue estava toda ali. Maquinado, Bacada, Rude e Luvão. Quatro sujeitos com mais de quarenta anos, bonitões, parrudos, todos com cara de mau.
Juntavam seus perteces para levar para o carro. Fazia um tempo, já, que não faziam essas coisas. Quando eram jovens, eram até conhecidos. Mas agora eram homens de bem, casados. Já nem tinham coragem. Só que hoje a coisa parecia ser boa, parecia que ia valer a pena. Então eles combinaram de se encontrar. Fariam tudo muito rápido, cada um pegaria sua parte e ia embora. Sem perda de tempo e principalmente, sem brigas. Afinal, quatro negões bem vestidos num Monza sempre chamam atenção.
Bacada era de todos o mais seco, daí o nome. Tinham braços grossos e era atarracado e suado. Estava sempre suado, quer dizer. Não sabiam muita coisa dele, ele sempre se mudava de casa, de bairro, de mulher. Foi ele quem arranjou o negócio. Iriam no carro do Rude, mas a ideia era dele. Ele era quem tinha os esquemas.
Rude, coitado, nem de longe era rude. Era o mais altão de todos, o mais manso também. Tinha esse apelido porque se chamava Rudenilson. Ele estava bem nervoso, porque tinha crescido na área onde iam atuar, e porque iam no seu Monza.
Chamavam Maquinado assim porque ele sempre bebia umas antes, pra criar coragem. De todos era o mais talentoso, o mais velho e o mais calado. Conhecia bem o estabelecimento. Costumava dar movimento. Concordou prontamente com Bacada, podia valer a pena, podia dar certo.
Luvão era um menino ainda comparado aos outros três. Muito meticuloso, gostava de usar luvas, nem tanto para não deixar digitais nas coisas, mas mais para não oxidar o cano de metal. Os outros zombavam dele. "Você pensa que é um gângster, bestão? Precisa mesmo dessas luvas?". Luvão sorria, humilde. Precisar, não precisava, ué. Mas gostava delas.
Subiram a Pedro Amaral já de noite, passando pelos pedestres que, talvez, iam para o mesmo bar. Tentavam não pensar muito no que iam fazer, para não ficarem tensos. Iam fazendo piadas, olhando a rua. Quando chegaram à Boa Vista, começaram a virar esquinas e mais esquinas até acharem o lugar. Pararam debaixo duma árvore, duas casas pra frente.
"Certeza que é aqui?", perguntou Luvão. Bacada, que dirigia, não respondeu. Desceram, pegaram as coisas no porta-malas.
Entraram no bar.
O lugar estava escuro, fumacento, mesmo sendo proibido fumar lá dentro. Só tinha luz perto do palco, o resto estava no escuro. O palco era lá no fundo.
Entraram, cada um segurando um negócio daqueles, e foram até o fundo do bar, sem olhar para os lados. O dono do bar os viu entrar e ficou de boca aberta, olhando-os passar.
Chegaram na beirada do palco, abriram seus cases, e de lá tiraram seus instrumentos. Subiram no palco com o coração a mil. Era agora.
Cumprimentaram a todos e começaram a tocar. Sem afinar instrumentos, sem "passação" de som. Simplesmente tocaram. E foi uma apresentação tão boa como há muito tempo não faziam. Até quem estava na rua resolveu entrar para ver a banda. Quem eram aqueles caras?! Foi uma coisa linda. Até a molecada nova, esses playboys que acham tudo chato, estava lá dentro na pista de dança.
Depois de tudo, o dono do bar trouxe chopp e uma porção de mandioca frita. "O bar bombou esta noite. Vocês deram lucro mesmo."
Maquinado estava todo orgulhoso. Ria feito besta: não só compraria presentes para os bacuris, como a esposa ganharia um vestido novo. Ia ter até Champanhe, pensou.
Cada um fez planos e contas enquanto comia rapidamente, para irem logo embora.
Os quatro saíram do bar em seguida, e Rude levou cada um pra sua respectiva casa (todos moravam longe). Na rodovia, rumo à Vila Toninho, foi pensando que talvez exista mesmo esse negócio de Espírito Natalino, afinal de contas.

Um comentário:

De Tudo um Pouco disse...

Adoro o seu escrever....Estava com saudades Regina Celia Akahoshi