segunda-feira, setembro 05, 2016

Não há Deus

Arisa acordou impaciente. Havia lido até muito tarde na noite anterior, ostensivamente, para usufruir do ambiente bucólico da casa de fazenda cercada de pampas verdes e longuíssimos eucaliptos de idade indeterminada. 
Ríspida com a empregada, recusou o café da manhã e vagueou pela casa sem intento, feito besta, intrigada e de sobrancelhas franzidas.
Antes do almoço, afastou-se da casa e foi até o limite do bosque, para absorver o ar puro e sentir o frio da sombra das árvores. 
(Havia quase seis anos que morava no mato, como dizia. Não tolerava a chatice e a falta de privacidade da cidade grande, e adorava animais. Sentia-se segura, agora, mas ressentia-se da falta de praticidade de algumas coisas que evidentemente deviam ser mais simples.)
Teimava em repensar, martelava.
"Não há Deus. Não há."
Objetava. É claro que há; quem fez os ipês? Olhe! Quem fez as aves? E o sistema digestivo das vacas? E os tartígrados?
"O acaso. Milhões de anos de evolução. Mutações randômicas. Sobrevivem aqueles cujas mutações os tornam mais adaptados. Os outros morrem. Todos morrem. Mas alguns passam adiante os genes que os ajudaram a manter-se vivos por mais tempo. Todos morrem, e não vão para lugar nenhum. Apenas morrem, e é bom que seja assim."
Voltou pra casa. Os cães, normalmente festeiros, olhavam-na de longe, intrigados, como se tentassem determinar se valia o risco chegar mais perto.
É bom que se diga que Arisa nunca foi uma mulherzinha frágil, mas também tinha seus medos. Quando criança, os meninos da escola implicavam com ela - feia! dentuça! branquela! - e apanhavam. Apesar disso, nunca tornou-se rude ou orgulhosa. Era apenas impaciente, de maneira geral, como aliás, quase todo mundo é.
A leitura da noite anterior a havia perturbado muito. Todas as suas indecisões uniram-se num nó que tornava sua vida impossível. Tinha de resolver isso agora ou não poderia continuar a existir. 
Foi até o quarto e abriu o guarda-roupa. Puxou uma grande caixa branca quadrada. Ergueu a tampa, afastou um fino lenço de pano pintado à mão, e tirou um enorme revólver cromado que mais parecia coisa de filme.
Foi até o pátio, nos fundos da casa.
Descarregou a arma, seis tiro para o alto.
"Não há Deus", pensou. Ninguém para socorrê-la quando orasse: "Não nos deixeis cair em tentação".
Entrou na caminhonete e dirigiu até perto da ponte. Desceu do carro, foi até a margem do rio. Não parou para apreciar os barrancos cobertos de mato, as copas das árvores quase pretas, a água escura e caudalosa do rio, não parou para ver nada.
Jogou a arma no rio.
"Não há Deus."
Amém.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom! Intrigante, nos faz pensar. Faz tempo que nao lia seus textos.