quinta-feira, janeiro 12, 2017

Minimalismo diário

O minimalismo é uma espécie de reeducação pessoal. Reavaliamos nossas prioridades, nossa postura diante de questões básicas do dia-a-dia, nossa interação com outras pessoas, com animais, plantas, ar, água.
Estou nesta jornada há menos de um ano. Nesse período, doei, vendi ou joguei fora três quartos de tudo que possuía. Nunca fui rica, não sou acumuladora patológica. E ainda assim, ao longo dos anos, uma grande quantidade de coisas se acumulou na minha vida. Todas as portas e gavetas da minha casa guardavam coisas (muitas delas, inúteis para mim). Objetos em desuso, velhos, alguns ainda com a etiqueta da loja.
Foi um grande esforço mental e físico pegar um por um dos meus bens pessoais, avaliar se devia ou não mantê-lo, sortir tudo que eu tenho e tive, e depois desfazer-me de tudo que não me servia mais, de uma maneira ou de outra.
Depois de livrar-me de literalmente um caminhão de coisas - daria para fazer uma mudança - minha casa não ficou completamente vazia. Ficou praticamente só o que estava em uso. Poucas coisas, já que fico muito pouco em casa. Não vou mentir, ainda há coisas para mandar embora.
É difícil nos acostumarmos à ideia de que não precisamos estocar coisas para uma eventual necessidade. E que "coisas" não são o que precisamos mais, em caso de uma emergência. Coisas são apenas coisas. Elas não resolvem problemas, não nos confortam, não nos alimentam, não nos ensinam.
Tive que doar lençóis, tapetes, móveis, centenas - talvez milhares - de livros, uma infinidade de roupas e calçados, utensílios de cozinha, objetos de decoração, joias e bijuterias, maquiagem. Também joguei fora muitas coisas. Vendi apenas um item. O restante ainda está lá. É o que uso, por enquanto.
Infelizmente é tentador navegar pelos sites procurando objetos para comprar. Coisas únicas, que ninguém mais tem. Coisas bonitas, boas de se olhar. Roupas maravilhosas. Calçados maravilhosos. Quadros, cortinas, almofadas, caminhas para os gatos. Mas a verdade é que no fim das contas, nada disso satisfaz. Nada disso me faz feliz. Nada disso me completa. Navegar na internet ou bater perna nos shoppings não tem nada de culturalmente excitante. É um meio de perder tempo e dinheiro, e de acumular inutilidades e frustrações.
E por falar em frustrações, tive que abrir mão de pessoas, também. A "limpeza" não foi apenas nos armários e gavetas. Às vezes, acumulamos à nossa volta pessoas que não nos trazem qualquer positividade - não nos alegram, não nos amam, não nos ensinam, não nos divertem. Pelo contrário, algumas nos arrastam a situações vergonhosas. Brigas, intrigas, fofocas, "mal-entendidos", confusões, maus negócios, tristezas, traições, inimizades. As pessoas em geral têm defeitos, eu sei. Mas alguns desses defeitos nos afetam mais. É preciso avaliar friamente o impacto que as pessoas têm nas nossas vidas. Se é negativo, é hora de distanciar-nos. Eu me distanciei de muita gente. Não necessariamente pessoas ruins, más. Em sua maioria, pessoas em cuja presença eu não ficava à vontade. Algumas, nem isso - eu não sentia nada. Poucas eram pessoas malignas. E o esforço para livrar-me delas foi infinitamente maior que o de livrar-me de objetos. Humanos se apegam, tomam ares de proprietários. Querem imiscuir-se em nossas vidas. Julgam. Invejam, mentem, omitem, negligenciam . Nem sempre é sem querer. E ainda que fosse por indiferença - para que manter-me ali, se não tinha importância?
Não é um processo simples, nem rápido, nem indolor. Mas o minimalismo tem feito maravilhas pela minha pele, pela minha saúde, pelo meu bem-estar. Desde que dei os primeiros passos, não fiquei mais doente - ao menos, não gravemente. Menos dores físicas. Mais tranquilidade. Tenho feito mais exercícios, porque passo menos tempo movendo as coisas de um lugar para o outro, limpando, organizando. Tenho lido mais, também. E até voltei a pintar - toscamente, mas é talento que me falta, não tempo. Gasto menos dinheiro em bares e restaurantes, minha alimentação melhorou. Durmo melhor, também, com menos preocupações e num quarto mais limpo. Parece até que a casa está mais silenciosa - não que as coisas fizessem barulho, mas a sensação que eu tinha era de agitação, confusão, atrito. Com menos estímulos, tudo ficou mais claro, tranquilo.
Ainda há uma trilha enorme a percorrer. Ainda tenho muitos objetos que estão ali por pena, por dó de jogar fora. Não devemos ter sentimentos pelas coisas. Pena, compaixão, são coisas que devemos ter por seres vivos, que sofrem. Coisas? Nem tanto. As xícaras e pires que não uso poderão achar quem os queira, e não sentirei remorso nenhum ao deixá-los partir.
Este não é um post com fórmulas. Não ensina a "ser minimalista". Não tenho um passo-a-passo de como fazer. Apenas achei interessante contar minha experiência. Também quero falar dos resultados práticos: menos tempo gasto em limpeza e arrumação, menos lixo produzido, e até comecei uma poupança. O dinheiro que não gasto mais em roupas, maquiagem, sapatos, livros, decoração. Estou lentamente aprendendo a utilizar as coisas que já tenho e a ter criatividade.
Ainda cometo muitos erros, sofro arrependimentos. Mas nem tanto como antes. Talvez no futuro eu encontre meios de não precisar me preocupar mais com nada que não seja absolutamente vital. Não sei. Talvez eu não volte a falar do minimalismo. Mas queria compartilhar minha experiência e incentivar outras pessoas a tentar. Não existe fórmula exata para um estilo de vida minimalista - uma quantidade máxima de objetos, um tempo máximo de contato com outras pessoas. Isso é papo furado. O que existe é um esforço consciente para causar menos impacto negativo ao mundo, e principalmente, para evitar que o mundo cause um impacto negativo em nós. 

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