terça-feira, janeiro 10, 2017

O que havia antigamente

- Antigamente, havia o frio.
- E como era, mãe?
- As pessoas precisavam se proteger. Em alguns lugares, caía gelo do céu, em forma de pequenos cristais flutuantes. Eles caíam devagar e se acumulavam nas ruas, formando montes.
- E doía?
- Doía o quê? O frio?
- Não, os cristais quando caíam nas pessoas, machucavam?
- Não, eram muito leves e pequeninos, como se fossem nuvens minúsculas...
- E para que servia o frio?
- Era algo que acontecia. Assim como haviam rios, cachoeiras, bichos correndo no mato. Não tinham uma utilidade específica, apenas existiam.
- Então não serviam pra nada?
- Meu filho, só porque algo não nos serve, não quer dizer que não é útil. Serviam para seus propósitos. Quando essas coisas existiam, os homens viviam em casas. Ninguém precisava cavar, porque era possível ficar lá em cima. As pessoas buscavam o sol. Os antigos dizem que as pessoas conversavam com o Sol e o adoravam, como se fosse uma pessoa, mas vivendo lá em cima entre os planetas, como se fosse o rei deles.
- E quando fazia frio, para onde as pessoas iam?
- Não iam a lugar nenhum. Ficavam em casa ou saíam para brincar na neve.
- Você brincava na neve? Perguntou o menino, cada vez mais incrédulo e confuso.
- Oh não! Quando eu nasci, o frio já não existia mais. Todas essas coisas foram há muito tempo... disse a mãe, com olhos sonhadores.
- Mãe, quando eu crescer, eu quero ver uma neve.
- Vai ser muito difícil, meu filho. Somente no topo das mais altas montanhas existe um pouco de neve. Mas já não há ar para respirar lá em cima. Depois que o mundo foi destruído, não temos mais como chegar a lugares distantes. Era preciso usar máquinas, carregar ar em garrafas para respirar. Não temos mais essas coisas. Mas você não deve desistir de sonhar. Pode ser que um dia, nossos irmãos que viajaram voltem, e tragam coisas boas para nós. Eles estão lá no céu, procurando um lar para nós. Eles viajam dia e noite, voando entre as estrelas, em suas naves. As naves são máquinas como aquelas que encontramos outro dia, mas em vez de andar na terra, elas voam. 
- Mas eles nunca chegam?
- Talvez já tenham chegado a algum lugar. Lá no espaço é frio, sabia? Não é quente como aqui. E lá eles comem algas, que são plantas que eles mesmos fazem nascer na água, dentro da nave.
-  Tem água dentro da nave? Água como a que pegamos aqui? Como cabem algas na água?
- Eles levaram muita água! Não é como a que pegamos aqui. É água bem limpinha, muita água, daria para encher nossa caverna, talvez até mais! Uma das naves tem muitas árvores e animais, e todos vivem dentro da água. Eles bebem água todo dia e são inchados e lisos, e sem cabelos.
- Sem cabelos?!
- Foi o que sua avó me disse. O avô dela era do seu tamanho quando as naves foram embora. Disseram que não era mais possível viver aqui. Mas nós vivemos aqui, não é mesmo? Eles foram procurar um lugar mais bonito, onde pudessem morar.
- Mãe, e as outras pessoas, onde foram morar?
- Não sabemos, filho. Eu e seu pai procuramos muitas vezes, mas nunca encontramos. Nosso grupo deve ser o último que resta. As máquinas não funcionam mais, ou nós não sabemos usar. Tem algo no céu que envia mensagens, mas ninguém consegue entendê-las. Talvez não tenha mais ninguém por aí. Mas se houver, deve estar esperando as naves, assim como nós.
- Não quero mais esperar a nave. Quero poder andar lá em cima como um animal.
- Para isso você vai ter que esperar a Terra cicatrizar. Lembre-se do que sua avó disse. Lá fora é perigoso, tem raidiação. A raidiação faz muito mal. Só vamos lá se precisar. Até a Terra cicatrizar, temos que relembrar, estudar e relembrar, para quando as naves voltarem, nós estarmos prontos para ir para o planeta.
- Eu não gosto da raidiação.

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